sábado, Abril 01, 2006

Psicopatologia - Perturbações de personalidade


Evolução histórica das Perturbações da Personalidade

A evolução histórica das teorias da personalidade passa para dois períodos principais. Num primeiro período a teoria regente era a dos humores corporais. Hipócrates, séc. IV A.C, era defensor de que os quatro humores, a bílis negra, bílis amarela, sangue e fleuma, em desequilíbrio seriam causa de todas as doenças. Identificou ainda quatro temperamentos básicos: o colérico (bílis amarela - irascibilidade), o melancólico (bílis negra - tristeza), sanguíneo (sangue - optimismo), fleuma (fleuma - apatia).
F. J. Gall construiu um modelo frenológico baseado nas variações do contorno do crânio, procurando correlações entre características da personalidade e o formato deste.
Heymans e Wiersma encontram oito tipos de carácter, amorfo, apático, nervoso, sentimental, sanguíneo, fleumático, colérico e apaixonado.
Num segundo período, Kurt Schneider defendia que as patologias da personalidade e os distúrbios mentais faziam parte de dois grupos distintos. Schneider procurava a elucidação das experiências internas dos sujeitos; por seu lado Kraeplin interessava-se sobretudo pela objectividade no estudo dos distúrbios mentais. Pritchard, 1837 com o seu tratado de insanidade mental, ou seja, de psicopatia, afirma que “A loucura consiste numa perversão mórbida dos sentimentos naturais, afectos, inclinações, temperamento, hábitos, disposição moral e impulsos naturais, sem que qualquer defeito de intelecto ou das faculdades do conhecimento e raciocínio e particularmente sem qualquer ilusão ou alucinação.
Kurt Schneider refere personalidades anormais e psicopáticas, ou seja, perturbações da personalidade e defende a existência de algumas variantes da personalidade patológica: hipertímicas, depressivas, inseguras, fanáticas, as que procuravam atenção, personalidades lábeis, vontade fraca e as asténicas. Kretcher procurou correlacionar as diferenças morfológicas com a psicose maníaco-depressiva e com a esquizofrenia. Agrupou as pessoas em quatro tipos físicos básicos: os pícnicos, os atléticos, os astémicos ou leptossómicos e os displásticos. Os seus primeiros estudos concluíram a existência de uma relação directa entre a psicose maníaco-depressiva e a constituição pícnica e entre a psicose esquizofrénica e o tipo astémico. Para o autor as perturbações psicóticas resultavam de acentuações de tipos de personalidade normal. Existiria desta forma, uma relação entre a estrutura corporal e o temperamento dos sujeitos. Kretcher propõe também a existência de quatro tipos fundamentais de relações: relação asténica (letargia depressiva, falta de energia); reacção primitiva (pessoas explosivas, delinquentes, impulsivos e imaturos); reacção expansiva (super sensibilidade, vulneráveis ao stress, irritabilidade); e tipo sensitivo (alto nível de actividade intrapsíquica e expressão emocional pobre). Para além destas reacções, Kretcher propôs a existência de alguns tipos intermédios, como o submisso e o histriónico (Rodrigues & Gonçalves, 1998).
Sheldon procurou correlacionar morfologia corporal, temperamento e psicopatologia, defendendo a existência de três dimensões básicas do seu esquema morfológico: a endormórfica (firmes e obesos), a mesomorfica (dominância de musculatura desenvolvida), a ectomorfica (fragilidade estrutural). Referia também a existência de uma tipologia temperamental na qual se incluem três componentes: a viscerotonia (gregaridade, expressão fácil de sentimentos, dependência de aprovação social), a somatotonia (assertividade, energia física, ansiedade baixa, coragem, indiferença à dor, necessidade de poder) e a cerebrotonia (contenção, autoconsciência, introversão, retirada social, solidão). Este autor propôs também três componentes primárias para a psicopatologia: a afectiva (doentes maníaco-depressivos); correlação directa entre a componente afectiva, a morfologia endomórfica e o temperamento viscotónio (alto limiar para a expressão emocional, capacidade inibitória muito enfraquecida); a componente paranóide que se correlaciona com a mesomorfia e a somatotonia (impulso antagónico, ideias delirantes de perseguição); a componente hebóide (retirada e regressão) que pode ser encontrada em indivíduos ectomorfos.
De acordo com a teoria de J. Sjorbring os temperamentos podem ser reduzidos a quatro constructos fisiológicos básicos inerentes a todas as personalidades: a capacidade (potencial genético para o desenvolvimento intelectual); a validade (grau de energia a disposição do funcionamento do sistema nervoso); a estabilidade (potencial máximo alcançável) a solidez (grau em que o potencial deve ser preenchido para manter o seu nível máximo). Sjorbring defendia que o interesse clínico centrava-se nas personalidades em que um destes factores está em desequilíbrio.
O ponto de vista psicodinâmico destaca a importância das experiências infantis precoces. A perspectiva psicanalítica centra-se no conflito intrapsíquico (todas as formas de comportamento, cognição e emoção servirão múltiplas necessidades e objectivos). Por outro lado, de um ponto de vista genético, acontecimentos precoces desenvolvem sintomas defensivos antecipatórios que persistem durante toda a vida e resultam em perturbações da personalidade.
Segundo uma conceptualização formulada por Freud “a nossa vida mental é governada por três polaridades”, sujeito (ego)-objecto (mundo externo), prazer-dor , activo-passivo, que estão relacionadas entre si de modo variado na mente.
Mais tarde, Freud procurou definir os tipos característicos de acordo com a estrutura psíquica dominante entre eles; um tipo erótico (exigências instintivas do id), outro, tipo narcísico (sujeitos dominados pelo ego), por último, um tipo compulsivo (vida regulada pela rigidez do superego). O carácter compulsivo defendido por Freud corresponde à perturbação da personalidade obsessivo-compulsiva actual.
Após 1933 apareceram com Reich, os conceitos actuais do carácter na sua formulação psicanalítica corrente. Os três principais tipos de carácter descritos por Freud, Abraham e Reich que se diferenciam a partir dos estádios psicossexuais: o carácter oral tem duas subfases: a fase da sucção e a fase oral de preensão. A primeira quando demasiado indulgente pode conduzir a um tipo oral dependente (indivíduos com optimismo imperturbável, auto-segurança ingénua). Se este período for deficitário pode ser associado a dependência excessiva, em que são muito importantes as fontes externas de gratificação. No que se refere a frustrações no estádio oral de preensão podem originar sarcasmo e hostilidade verbal, com uma grande desconfiança pessimista, tendência à petulância.
No carácter anal, a criança tem a capacidade de controlar os músculos do esfíncter anal e compreender as expectativas parentais, podendo assim adaptar atitudes em relação à autoridade que terão efeitos de longo alcance. Os carácteres anais dependem do período durante o qual a resolução conflitual se passa, período expulsivo (característico de desconfiança, megalomania, tendência ao auto-conceito extremo, ambição e assertividade) ou período de retenção (frugalidade, obstinação, ordem, predominância de parcimónia, meticulosidade e respeito das regras sociais). Estes sujeitos estão em constante conflito entre “o quero ser mau” e o “tenho que ser bom” (Fenichel, 1945).
O carácter fálico, período de desenvolvimento psicossexual, é passível de ser perturbado pela sexualidade narcísica (Reich,sd, cit. por Amorim & Gonçalves, 1998). Este carácter é vaidoso, arrogante, autoconfiante, vigoroso, frio, reservado e agressivo. É uma fase vista como o início da maturidade (socialização e a adaptação adultas) em que podem ocorrer duas patologias: carácteres histéricos (sedução, superficialidade, volatilidade, incapacidade de relacionamentos estáveis) e masoquistas (autocriticísmo, disposição conflituosa, hábito de se atormentar a si próprio e aos outros).
Jung apresenta uma tipologia baseada na distinção entre extroversão (fluxo de energia em direcção ao mundo exterior) e a introversão (bom ambiente é aquele considerado necessário à satisfação das necessidades internas). Em relação a estes dois conceitos podem existir quatro modos distintos de funcionamento psicológico: o pensamento, o sentimento, a sensação e a intuição.
Horney identificou três modos de funcionamento que provêm das inseguranças e frustrações da vida: aproximação (encontrada no tipo adaptativo), oposição
(tipo agressivo) e afastamento das pessoas (tipo independente).
E. Fromm reinterpreta a teoria de Freud num contexto social, “o carácter compulsivo é visto como resultado não de frustrações experimentadas no estádio oral, mas sim como modelo comportamental exibido por um pai rígido e meticuloso durante o treino dos esfíncteres” (Rodrigues & Gonçalves, 1998).
Fromm propõe a existência de orientações caracteriais: a orientação receptiva (necessidade profunda de suporte externo, é experienciada ansiedade quando fontes de suporte são ameaçadas; os sujeitos optimistas, receptivos e amistosos), o carácter explorador ( tirar dos outros o que os gratifica, são pessimistas, desconfiados, hostis e têm necessidade de furtar e usurpar); carácter acumulador (investimento rígido e compulsivo na ordem, dificuldade de partilha de objectos); carácter publicitário (moldam-se de acordo com as expectativas dos outros, vendem a sua imagem, são superficiais e manipuladores); e carácter produtivo (desenvolvem plenamente as suas capacidades, têm pensamento independente).
Por último, num terceiro período, Gunderson centrou os seus estudos na personalidade borderline e organizou as perturbações na DSM-IV-TR num continuum. As perturbações da personalidade incluíam-se num nível menos patológico (obsessivos-compulsivos, histriónicos, evitantes e dependentes), num nível médio (esquizóides, anti-sociais e borderline) e os mais graves nas perturbações do espectro ligadas com sintomas psicóticos (esquizotípicas, paranóide e depressivos). Por outro lado, de acordo com os cognitivistas cada pessoa reage ao mundo externo a partir da sua percepção única desse mesmo mundo. As estruturas cognitivas que se formam categorizam e organizam estes esquemas em hierarquias complexas. Os sentimentos e comportamentos disfuncionais reflectem um processo baseado em esquemas deficientes, resultantes destes erros perceptuais e interpessoais repetidos. Estes esquemas dão lugar a estratégias mal adaptadas que por sua vez tornam o indivíduo susceptível às dificuldades habituais da vida diária (a personalidade dependente e hipersensível à possibilidade de perder o amor).




Paradigma Neurobiológico

Este paradigma organiza-se em várias dimensões fundamentais. Alterações persistentes de uma ou mais destas dimensões podem contribuir para o desenvolvimento de mecanismos de defesa específicos e estratégias adaptativas.
Uma disfunção da organização perceptivo-conceptual leva a perturbação dos processos de concentração e da atenção o que se reflecte nos sinais e sintomas, discurso peculiar, pensamento mágico, alterações da percepção, desconfiança entre outras. Isto pode ser observado na esquizofrenia ou na perturbação da personalidade esquizotípica, os doentes podem viver ansiedade social tendendo a isolar-se.
Existem evidências de uma associação genética entre a esquizofrenia e a perturbação de personalidade esquizotípica. As alterações na atenção e no processamento de informação, potenciais auditivos evocados e movimentos oculares, são comuns nos doentes com perturbação da personalidade esquizotípica e esquizofrénicos.
A instabilidade afectiva pode-se definir como mudanças emocionais exageradas e rápidas, em resposta a estímulos ambientais com carga afectiva, como por exemplo críticas, separação de uma pessoa significativa ou frustração. Esta instabilidade perturba a capacidade de manter uma representação estável do self, tal como relações interpessoais; pode ainda prejudicar a aprendizagem e o desenvolvimento de outros processos cognitivos. A raiva intensa de um paciente borderline durante uma discussão com um amigo pode distorcer a memória desse acontecimento de tal modo que o paciente passa a considerar o amigo como um indivíduo completamente mau.
Constata-se uma labilidade afectiva nos parentes de primeiro grau dos doentes borderline, sugerindo uma componente hereditária nesta dimensão, embora ainda não exista um correlato biológico definitivo para esta variável.
Os distúrbios do controlo dos impulsos são caracterizados por uma capacidade diminuída para conter ou inibir a passagem ao acto, particularmente do tipo agressivo.
Se esta capacidade diminuída for crónica, é persistente a predisposição para a impulsividade e agressividade que podem resultar em comportamentos repetidos auto-destrutivos e anti-sociais.
Todas as linhas de investigação sugerem que existem anomalias biológicas que contribuem para o comportamento impulsivo-agressivo.
A ansiedade é um sinal de alerta que surge quando existem ameaças à segurança, mas também se pode tornar mal adaptativa e interferir com a produtividade e o bem-estar (timidez, sensibilidade à rejeição e uma habilidade diminuída). Do ponto de vista cognitivo, pode prejudicar a concentração e levar à distorção perceptual.

Modelo evolucionista

Theodore Millon procurou integrar diversos esquemas e constructos teóricos que nos conduzem à compreensão dos resultados provenientes das várias áreas de conhecimento científico contemporâneo. Defende que as pessoas são um sistema único organicamente integrado no domínio psicológico e procura estabelecer ligações entre os domínios biológico, psicológico e sociológico sem cair numa filosofia reducionista nem em crenças de identidade substantiva.
Este modelo procura explicar a estrutura da personalidade com referência a três modos fundamentais de adaptação ecológica e estratégia reprodutiva designados como deficitários, conflituais e desequilibrados.
A estrutura e características da personalidade normal ou patológica não são mais do que as capacidades do indivíduo funcionar psicologicamente de modo saudável ou perturbado.
A personalidade é assim, um estilo específico de funcionamento adaptativo que um organismo particular apresenta. As personalidades normais apresentam modos de adaptação específicos da espécie, eficazes dentro das variáveis ambientais esperadas, enquanto que as perturbações da personalidade são diferentes estilos de funcionamento mal-adaptativo e originam deficiências, desequilíbrios ou conflitos na relação com os estímulos ambientais.
Na espécie humana, a primeira força pode ser vista através dos actos que promovem a vida e enriquecem a existência, o que se experiencia com o prazer, enquanto que a dor manifesta-se em comportamentos que também preservam a vida na medida que repelem ou evitam os acontecimentos experimentados como dolorosos.
Os modos activo-passivo são muito eficazes na preservação da vida e adaptação ao ambiente. Esta polaridade pode ser vista como acomodação vs. modificação ou passividade vs. actividade.
Os machos na espécie humana tendem a serem orientados para o self como resultado do facto de que a competição pelos recursos reprodutivos maximiza as vantagens replicatórias dos seus genes (agir de modo egocêntrico, insensível e não comunicativo). As fêmeas são mais orientadas para o objecto, porque as suas competências na prestação de cuidados e protecção à sua prole limitada maximizam também as vantagens replicatórias dos seus genes.
Numa oposição de características de orientação macho-fêmea podemos ter por um lado poder, arrogância, competição, ambição, dominação e autonomia por parte dos machos; e por outro, amor, altruísmo, cuidar dos outros, intimidade, confiança e cooperação nas fêmeas.

Paradigma Psicanalítico

Otto Kernberg propõe uma teoria psicanalítica que abrange as perturbações da personalidade. Este tipo de abordagem permite técnicas de lidar e alterar padrões de transferências destas perturbações e obter mudanças de carácter.
Por temperamento, entende-se a disposição constitucional e geneticamente determinada para reacções a estímulos (intensidade, ritmo e tipo de resposta afectiva).
O carácter é a organização dinâmica dos padrões comportamentais do indivíduo. Kernberg tem um conceito de carácter que engloba as manifestações da identidade egóica, integração do self e dos objectos nas estruturas intra-psíquicas e também funções do ego. A personalidade é assim determinada por temperamento, carácter e superego.
Este sistema de valores é a dimensão da personalidade moral e ética. O inconsciente dinâmico-id é o sistema dominante mas também gerador de conflitos motivacionais na personalidade.
A personalidade normal é constituída por integração do self com conceito de objectos significativos. Isto é comprovado na aparência externa e visão integrada do self, que permite ao sujeito realizar os seus objectivos com empatia e investimento emocional.
Outra das características da personalidade normal é um ego que se reftecte nas disposições afectivas com capacidade de controlar os impulsos na sublimação no trabalho e nos valores e persistência e criatividade no trabalho. A identidade egóica também origina capacidade de confiar, reciprocidade e investimento nos outros. Nesta existe um superego integrado e estável sem excesso de proibições infantis, que se reflecte na responsabilidade, autocrítica, integridade, flexibilidade na tomada de decisões. Observa-se uma manipulação dos impulsos libidinais e agressivos apropriada.
É também necessário exprimir totalmente as necessidades sexuais com ternura e investimento emocional no objecto. Tudo isto deve ser compatível com a identidade egóica e com o ideal do ego do sujeito.
Existe nesta estrutura uma sublimação da agressividade para a afectividade e para o self. Nas perturbações graves da personalidade tal não acontece, uma vez que predomina a agressão patológica dirigida ao self.
Para o indivíduo se desenvolver com uma personalidade normal existem certas etapas e estruturas que se devem concretizar. Na fase simbólica tem de haver internalização da fusão da representação do self e do objecto, das representações completamente boas ou completamente más (Malher, cit. por Rodrigues & Gonçalves, 1998). Esta fusão dá origem ao id - soma das relações de objecto que se ocorreram sob estados afectivos muito intensos que foram reprimidos ou projectados por serem inaceitáveis.
Na segunda fase de desenvolvimento ocorre diferenciação entre as representações completamente boas ou completamente más do self e do objecto que leva à constituição de unidades internas - estruturas básicas do ego, este é o estado de separação – individuação de Malher (Rodrigues & Gonçalves, 1998).
No terceiro estádio as representações são integradas num conceito unificado que permite ver o self de forma realista e tolerante. Isto também se dá com representação dos outros significativos, o que vai permitir relações ambivalentes integradas.
Este modelo vê o superego como tendo várias camadas sucessivas de representação do self e do objecto. Na primeira camada, encontram-se relações de objecto completamente más e persecutórias que reflectem uma moralidade primitiva e proibitiva. A segunda é constituída por representações ideais do self e do objecto, segurança, amor e dependência. Na terceira, existe a constância do ego e do objecto que facilitam o desenvolvimento ao mesmo tempo do superego, um superego que fortaleça as relações de objecto adultas com autonomia e pouca dependência externa.
Kernberg considera que a libido e a agressão aparecem em fases precoces e são activadas nas primeiras relações com o objecto.
Estudos com borderlines verificam a existência de abuso físico e sexual na sua história de vida, que evidenciam a importância do trauma causado pela agressão no aparecimento da patologia.
Nas perturbações de organização neurótica: histérica, obsessivo-compulsiva e depressivo-masoquista, a patologia encontra-se na libido; têm traços em que domina a inibição sexual, a passagem ao acto. Não havendo problemas com superego, identidade egóica e na constância de objecto é reforçada a ideia de se tratarem de problemas da sexualidade. Por oposição no doente borderline, a interacção sexual esta impregnada de objectivos agressivos que levam a parafílias.
Freud e Abraham e a exploração psicodinâmica chegam à conclusão de que nas perturbações graves de personalidade existem condensações patológicas nos períodos oral, anal, e genital. Prevalece a relação entre conflitos orais e dependência, depressão e agressividade autodirigida, conflitos anais e personalidade obsessivo-compulsiva.
Existem três tipos de organização da personalidade, a psicótica, borderline e neurótica. Na organização psicótica há ausência de integração do self com os objectos o que se nota na difusão da identidade, uso de defesas com clivagem utilizados com intuito de autoprotecção e alterações no teste da realidade, ou seja, a diferenciação entre o intrapsíquico e os estímulos externos é perdida.
Na organização borderline estão incluídas todas as perturbações da personalidade, borderline, esquizóide, esquizotípica, paranóide, hipomaníaca, hipocondríaca, narcísica e anti-social. Caracteriza-se pela difusão da identidade, utilização de mecanismos de defesa primitivos de clivagem, apresentado contudo o teste da realidade mantido, ao contrário da organização psicótica. Apresentam deterioração superegóica, principalmente na perturbação narcísica, síndrome do narcisismo maligno e perturbação anti-social.
Todas as perturbações da organização borderline têm difusão da identidade, alterações graves das relações interpessoais, falta de objectivos, incertezas em diversas áreas e patologias da sexualidade. Apresentam muitas vezes incapacidade de ter comportamentos sexuais com ternura e intimidade, apresentando assim uma vida sexual caótica com perversidade polimorfa infantil. Nos casos mais graves há inibição por falta de activação na relação com o prestador de cuidados, isto devido à agressividade que inibe a sexualidade. Observa-se também fraqueza do ego, pouca tolerância à frustração, pouco controle dos impulsos e dificuldades de sublimação. Alguns conseguem ter adaptação social algo satisfatória com alguma intimidade egóica normal, capacidade para estabelece relações objectais profundas, tolerância à ansiedade, controlo de impulsos, sublimação com eficácia, amor sexual e intimidade, sendo contudo afectados pela culpa. Incluem-se personalidades histérica, depressivo-masoquista, obsessiva e evitante.
Costuma haver inter-relações entre as perturbações da personalidade sendo difícil por vezes delimitá-las.
A personalidade pode definir-se como a integração dinâmica de aspectos cognitivos e afectivos bem como dos aspectos fisiológicos e morfológicos do indivíduo (Pichot, cit. por Rodrigues & Gonçalves, 1998).
Pode-se falar em perturbação da personalidade quando as características da mesma são inflexíveis e inadaptadas, causando comprometimento funcional significativo e por vezes também sofrimento subjectivo. As perturbações da personalidade identificam-se não pelas suas manifestações clínicas nem pelos sintomas, mas pelos traços de personalidade da pessoa. Estas pessoas costumam ser aquelas consideradas como tendo “mau feitio” ou de “personalidades fortes”, tentam impor-se perante os outros.
As perturbações da personalidade encontram-se entre as neuroses e as psicoses porque partilham algumas características destas. Estão contudo noutro plano porque não fazem critica ao seu estado patológico, não estão fora da realidade, mas acham que não tem a doença; vêem o problema nos outros.
As estratégias que usam não resultam. A capacidade de amar e trabalhar está afectada, havendo tendência para provocar a rejeição por parte dos outros. Estes traços são aloplásticos e egossintónicos, em sintonia com o eu. Encontram-se em 5% a 10% da população, com tendência a diminuirem com a idade, mas a serem cada vez mais frequentes. Prevalecem três vezes mais em estratos sociais baixos. Encontram-se 59% com história de emprego instável, 45% desajustamento conjugal, 65% hábitos alcoólicos e 75% problemas legais.
O DSM-III divide as perturbações da personalidade da seguinte forma:
A- perturbações da personalidade paranóide, esquizóide, esquizotípica (aparência bizarra ou excêntrica);
B- perturbações da personalidade borderline, anti-social, histriónica e narcísica (aparência dramática, apelativa, e manipuladora);
C- perturbações da personalidade evitante, dependente, obsessivo-compulsivo (aparência receosa e ansiosa) .

A.
Personalidade Paranóide

Falre, 1978 descreve este tipo de personalidade com traços de desconfiança, falsidade de julgamento, orgulho e indiferença.
As personalidades paranóides caracterizam-se por hipertrofia do Eu (orgulho, certeza de ter razão, desprezo exploração dos outros, rigidez e intolerância); desconfiança (incompreensão e não estima pelos outros, atitudes megalómanas, de perseguição, de ciúme, erotomaníacas); estão sempre alerta achando que vão ser prejudicados.
Existem também dificuldades nas relações ao nível familiar, profissional que acabam por conduzir a um isolamento social. Acham que os outros estão com más intenções. Estes sujeitos acreditam sempre que os outros têm más intenções.
São indivíduos litigiantes, exagerados nas dificuldades, hipervigilantes e com ausência de culpa; tem extrema dificuldade em aceitar criticas que lhes são dirigidas e evitam relações mais íntimas. Pensam “não há amigos”, “todos me querem mal”, “todos me prejudicam”e, interpretam as situações de forma a confirmarem as suas suspeitas.
Segundo Rodrigues e Gonçalves conclui-se que pessoas com o pensamento sistematicamente autoreferente tendem a funcionar de forma paranóide.
Caracterizam-se por terem atitudes de exploração dos outros, dúvida de lealdade, reconhece significados ameaçadores em situações em que tal não é justificável, não esquece insultos ou lapsos dos outros, relutância em confiar, fácil passagem ao acto e dúvida de fidelidade do parceiro.

Personalidade esquizóide

A personalidade esquizóide é marcada pela pobreza de vida afectiva e relacional apresentando pouca capacidade para experimentar e exprimir emoções.
Na grande maioria das vezes, estes doentes preferem actividades solitárias, não tendo amigos intimas aparentando também distância e frieza. Em crianças preferem brincadeiras solitárias, quando adolescentes não namoram e mais tarde não constituem família. Apresentam alguma suspeição, reagindo mal em situações sociais.
As suas características principais são relações próximas não desejadas, actividades profissionais solitárias, quase inexistência de expressão de emoções fortes de alegria e raiva, indiferença por elogios ou críticas, inexistência de amigos mais próximos que não sejam familiares, embotamento afectivo, frieza e distância.

Personalidade esquizotípica

Esta personalidade distingue-se pela possível existência de ideias de referência, crenças e aparência bizarras e pensamento mágico. Os temas de conversa são fundamentalmente esotéricos e místicos; aparecendo por vezes um pseudo-intelectulismo, isto é, associação de palavras. O seu discurso é geralmente digressivo, vago ou abstracto, os conceitos são expressos de forma excêntrica e descontextualizada com o intuito de causar estranheza nos outros.
A personalidade esquizotípica é ainda caracterizada por aparência desleixada e comportamentos excêntricos. Estes indivíduos têm tendência ao isolamento mas não possuem ideias delirantes.
Existe alguma evidência de que indivíduos que sofram desta perturbação tenham muitas vezes familiares em 1º grau com esquizofrenia.
As principais características destes indivíduos são dificuldades de relacionamento interpessoal, ansiedade social excessiva, ideias de referência, crenças bizarras e pensamento mágico, aparência e comportamentos bizarros ou excêntricos, ausência de amigos próximos, afecto embotado ou inapropriado e suspeição ou ideação paranóide.

B.
Personalidade Anti-social

Podem existir indicadores precoces da sua existência tais como pequenos furtos, fugas de casa, absentismo escolar, mentiras patológicas, crueldade com animais, agravando-se depois com a entrada na adolescência, que se revela por, instabilidade passagens ao acto, delitos, tentativas de suicídio, entre outras.
Existem alguns factores conhecidos como possíveis predisponentes desta perturbação como é o caso da instabilidade, hiperactividade na infância, abuso sexual, ausência de figuras parentais ou de disciplina consciente. São pessoas intrusivas, instáveis e agressivas que não contém os impulsos.
Só se pode falar em diagnóstico de personalidade anti-social quando o indivíduo tem idade igual ou superior a 18 anos.
Estes sujeitos não possuem limites internos. A relação com o outro é baseada na exploração, em que o outro é um mero objecto do qual quer obter benefícios, seduzindo-o. Não tem culpabilidade, tem um superego mal integrado. Há uma maior prevalência desta perturbação no sexo masculino.
Caracterizam-se por absentismo escolar, crueldade física com pessoas e animais, lutas físicas frequentes, uso de armas em confrontos, mentiras frequentes roubos e violações. São indivíduos que têm frequentemente problemas com a justiça.
Apresentam um comportamento irresponsável e anti-social desde cedo, têm incapacidade respeitar obrigações profissionais e financeiras, fazem viagens sem objectivo claro, ausência de uma morada fixa e incapacidade para desempenhar papel parental responsável.
Personalidade borderline

Os indivíduos com esta perturbação apresentam frequentemente grande impulsividade, têm uma baixa tolerância à frustração, muita facilidade de passagem ao acto, sentimento crónico de aborrecimento e vazio e difusão de identidade (auto-imagem, orientação sexual, valores). Existe uma grande instabilidade a todos os níveis, nomeadamente nas relações interpessoais, de escolhas profissionais e identidade.
Existem fortes indicadores de uma relação entre a personalidade borderline e a depressão. Esta perturbação caracteriza-se essencialmente por crises depressivas, abuso de substâncias, episódios psicóticos breves ou ideias de suicídio. É mais frequente no sexo feminino. Têm pensamentos do tipo “quem sou eu?”, “ o que é que eu gosto?” e “o que é que eu desejo?”. São sujeitos verbalmente agressivos, sexualmente promíscuos, podendo consumir substâncias.
Entre as características principais destes doentes encontram-se instabilidade do humor, relações interpessoais intensas e instáveis, impulsividade, cólera inapropriada, ameaças de suicídio, perturbações de identidade persistentes, sentimentos crónicos de vazio e aborrecimento e esforços para evitar o abandono.
Personalidade narcísica

Este tipo de personalidade caracteriza-se por um padrão global de grandeza em fantasia ou comportamento, hipersensibilidade à avaliação dos outros, pouca empatia, auto-estima instável, reacção de vergonha humilhação como resposta a uma critica, alternam entre sentimentos de grandeza e auto-desvalorização e consideram os outros um prolongamento de si mesmos. São indivíduos que aspiram ao poder, beleza e brilho e invejam os que obtém maior sucesso. Estes indivíduos apresentam muitas vezes situações de depressão, normalmente quando atingem a maioridade e se apercebem de que não alcançarão o êxito por eles pretendido.
As características que marcam esta personalidade são um padrão de grandeza global, hipersensibilidade à avaliação dos outros, exploração nas relações interpessoais, sentimento grandioso de auto-importância, os seus problemas são únicos, têm fantasias de êxito e beleza ilimitadas e amor idela. Possuem também ausência de empatia e sentimentos de inveja. Exigem constantemente admiração e atenção e procuram elogios.
Personalidade histriónica

As principais características desta personalidade são os comportamentos sedutores de cariz sexual. Há uma procura incessante de atenção, excessiva emocionalidade e teatralidade, gritando ou fingindo doenças com intuito de atrair atenções. Estes indivíduos têm grande preocupação com a aparência física, vivem centrados em si e têm uma baixa tolerância à frustração. Vivem uma sedução erotizada que difere da personalidade narcísica. Isto não significa que tenham uma vida sexual activa, têm uma visão do mundo como divido entre homens e mulheres, ou seja, os alvos a seduzir e os adversários a afastar.
Apresentam também uma exuberância facilitadora dos contactos sociais, sendo ao mesmo tempo influenciáveis e impressionáveis.
Precisam constantemente de novos estímulos que os retirem da rotina.
Entre as suas características encontram-se emocionalidade excessiva, procura de atenção, procura de aprovação ou elogios, preocupação com aparência física, egocentrismo e discurso impressionista.

C
Personalidade evitante

É habitualmente descrita como fóbica, com comportamentos ligados à timidez, evitamento de situações sociais e relacionais que impliquem sexualidade ou agressividade. Tem uma baixa auto-estima e uma imagem de si extremamente desvalorizada.
São indivíduos hipervigilantes em situações percebidas como envolvendo algum género de perigo. É ainda caracterizada por um padrão persistente de desconforto social, medo de avaliação negativa e timidez.
É comum a sensibilidade à crítica e a sinais de desaprovação, são retraídos e não tem amigos íntimos.
Evitam situações em que antecipam qualquer tipo de embaraço ou que evidenciem a falta de capacidades; acontece o rubor facial, choro ou sinais visíveis de ansiedade.
São caracterizados por apresentarem desconforto social, timidez, hipersensibilidade à critica e desaprovação, ausência de amigos próximos, evitamento de relações interpessoais, medo de ficar embaraçado, exagero de dificuldades, riscos ou perigos potenciais.

Personalidade dependente

Os indivíduos com este tipo de personalidade apresentam um comportamento dependente, submisso e infantil possuem uma grande incapacidade para tomar decisões, passando, quando podem, essas decisões para a responsabilidade de outros. Quando estão sozinhos têm uma sensação de desconforto ou desespero e sentem medo da rejeição e abandono, fazendo o possível para que tal não aconteça.
Verifica-se habitualmente a existência de ansiedade e depressão, subvalorização das suas capacidades e uma autocrítica exagerada. São comuns a necessidade de afecto, os sentimentos de inadequação e hipersensibilidade à crítica, não sendo capaz de estabelecer relações de confiança.
Numa situação d abandono, o indivíduo com perturbação depressiva procura a submissão, o apaziguamento e procura rápida de outro objecto que o substitua.
As características principais são incapacidade para tomar decisões, concordância com os outros (mesmo quando sabem que os outros não têm razão), dificuldade em iniciar projectos próprios, desespero e desconforto quando sozinhos, sentimentos de desespero quando uma relação intima acaba, medo de abandono, hipersensibilidade à crítica.
Personalidade obsessivo-compulsiva

Nos indivíduos com esta perturbação da personalidade são comuns características como o perfeccionismo e inflexibilidade. Preocupam-se com regras e pormenores insignificantes, privilegiando o trabalho e a produtividade em detrimento do lazer e das relações pessoais. São indivíduos conscienciosos, moralistas e escrupulosos. Investem na ordem, limpeza e arrumação sendo muito exagerados. São pontuais, mas com baixa produtividade sendo muito lentos e controladores.
Há uma maior incidência desta perturbação em sociedades ocidentais pelo facto de darem muita importância a traços como a autodisciplina, controlo emocional, perseverança e atenção aos pormenores.
Como características principais encontram-se um padrão persistente de perfeccionismo e inflexibilidade, insistência despropositada para que os outros se submetam à sua maneira de fazer as coisas, expressão afectiva diminuída, ausência de generosidade.

Perturbação da personalidade não especificada

Esta categoria é utilizada quando existem traços de mais do que uma perturbação da personalidade específica ou em relação perturbações da personalidade que o clínico julgue aproximadas.

Perturbações da personalidade em investigação
Perturbação depressiva da personalidade

Sentimentos permanentes de tristeza, desânimo, abatimento, desilusão e infelicidade. Antecipam futuro negativamente e são incapazes de se divertirem. Exigentes consigo mesmos, sentem culpabilidade pelos seus defeitos e fracassos.

Perturbação negativa de personalidade

Atitudes negativistas e resistência passiva a exigências (sociais e laborais). Apresentam resistência, oposição e ressentimento de modo passivo no cumprimento de expectativas. Resistências que se expressam através de adiamentos, descuidos, esquecimentos e enganos intencionais. Inveja e ressentimento em relação aos companheiros de trabalho.

Apontamentos de Quimica


Brevemente disponivel

Apontamentos de Psicopatologia - Entrevista clínica




A Entrevista Clínica ( incomplet)



A Entrevista Clínica 1
Entrevista 2
Classificação das Entrevistas Psicológicas 2
Entrevista Clínica 3
Tipos de Entrevista 5
Entrevista de Recolha de Dados ou Rastreio Psicológico 5
Entrevista de Estudo de Caso 5
Entrevista de Pré e Pós-Teste 6
Entrevista Breve de Avaliação 6
Entrevista de Conclusão 6
Entrevista de Investigação 7
Entrevista de Avaliação do Estado Mental 7
Técnicas de Entrevista 7
Pragmática da Entrevista Clínica 9
Referências Bibliográficas 11



Entrevista

é um encontro formal
entre dois ou mais intervenientes
com papéis definidos à partida (há uma relação assimétrica) e
com objectivos determinados discussão de um assunto
obtenção de informação
implicando um espaço específico (setting),
um período de tempo definido e
uma relação face-a-face,
no qual se privilegia a dimensão verbal,
se aplicam técnicas específicas

Classificação das Entrevistas Psicológicas

Existem várias classificações, cada uma versando sobre aspectos diferentes:

à Nível de estruturação
estruturada
semi-estruturada
não estruturada
à Objectivo
avaliação
investigação
selecção
à Meio ambiente emocional
frio
caloroso
à Fase da relação
diagnóstica
terapêutica
de conclusão
à Quadro teórico de referência
psicanalítica
ó entrevista centrada na avaliação de dimensões inconscientes, privilegiando o funcionamento psicológico através das configurações e processos intrapsíquicos ou dos padrões de transações interpessoais
fenomenológico-existencial
ó entrevista centrada nas temáticas do sentido da vida e dos seus valores - liberdade, responsabilidade, consciência - e na tendência actualizante do organismo
cognitivo-comportamental
ó entrevista centrada na avaliação de padrões comportamentais passados e presentes, bem como das influências ambientais
teorias sistémicas
ó entrevista centrada na relação, interacção e comunicação entre indivíduos dentro de um sistema

Craig apresenta a seguinte classificação:

1. Entrevista de Recolha de Dados ou Rastreio Psicológico
2. Entrevista de Estudo de Caso
3. Entrevista de Avaliação do Estado Mental
4. Entrevista Breve de Avaliação
5. Entrevista de Conclusão
6. Entrevista de Investigação

De facto, os níveis de estruturação de uma entrevista, bem como o clima emocional em que ela decorre são muito mais dependentes quer dos objectivos, quer dos quadros teóricos que regem os entrevistadores de que referenciais objectivos e deliberadamente estabelecidos.

Entrevista Clínica

ENTREVISTA PSICOLÓGICA ¹ ENTREVISTA CLÍNICA

A entrevista clínica é uma consulta, pois é já uma prestação de serviços face ao entrevistado - estabelece-se aí uma relação assimétrica entre entrevistador e entrevistado


ENTREVISTADO ENTREVISTADOR

pede ajuda / pede um serviço tem um saber específico
tem competência técnica
tem funções específicas
aplica o raciocínio clínico

Segundo Goldman, o raciocínio clínico tem diversas fases:
investigação das queixas através da análise da história e da observação
recolha de dados a partir de técnicas de diagnóstico / avaliação apropriadas
integração dos dados recolhidos de modo a conhecer adequadamente o estado do paciente
estimativa dos custos e benefícios da necessidade de realizar mais testes ou iniciar um processo terapêutico
discussão com o paciente acerca das várias alternativas

Numa entrevista clínica, o clínico deve procurar entrar na linguagem do paciente, empregando as suas próprias palavras e criando uma representação do seu passado e do seu presente, atingindo, assim, uma compreensão dos seus problemas e comunicando-lhe essa compreensão numa linguagem perceptível para ele.
Várias coisas são mobilizadas numa entrevista clínica:

Identificação
compreensão empática do cliente pelo psicólogo identificação do sujeito ao psicólogo (para conseguir elaborar os seus problemas e distanciar-se deles, o sujeito deve ser capaz de se identificar à atitude, à serenidade e ao olhar objectivo do psicólogo)Projecção
projecção de memórias e afectos
projecção como mecanismo de defesa
identificação projectiva
Transferência
transferência positiva
transferência negativa
transferência como resistência
clivagem
Contra-transferência
serenidade (evitamento da aplicação rígida da técnica e da ansiedade face aos problemas do outro e face à necessidade de resultados rápidos)
desejo de ajudar (bienveillance)
ódio
contra-transferência como modo de compreender o outro
Grupos de Pertença
Tipos de Entrevista
Entrevista de Recolha de Dados ou Rastreio Psicológico

As entrevistas de recolha de dados são geralmente realizadas em contexto institucional, debruçando-se sobre uma problemática específica, nomeadamente saber se o utente, que não fez qualquer pedido directo ao psicólogo, tem ou não indicação para um processo terapêutico no contexto da instituição. Essencialmente, tem como objectivos:
­ obter informação suficiente para apresentação do caso em reunião científica
­ clarificar a natureza dos serviços que a instituição pode oferecer naquele caso específico (na medida em que as instituições são habitualmente especializadas e focais)
­ comunicar as regras e as normas da instituição ao utente
­ determinar o tipo de tratamento e terapeuta mais adequados aquele utente (definindo o projecto terapêutico em função das suas necessidades e da formação e disponibilidade dos técnicos)
­ obter informações gerais para o registo da instituição (para fins estatísticos e devido à rotatividade dos técnicos nas equipas)
­ determinar a indicação de outros recursos caso se justifique
Entrevista de Estudo de Caso

A entrevista de estudo de caso pode ser o aprofundamento de uma entrevista de recolha de dados. Aprofundamento não só no sentido de se poder dispor de mais tempo, mais entrevistas e neste sentido ter acesso a mais e mais significativo material mas também no sentido de, no contexto da própria entrevista, poder utilizar instrumentos de avaliação psicológica que complementem, esclareçam ou clarifiquem aspectos considerados relevantes (é importante em situações em que há dúvidas sobre o caso ou em que é necessário apresentar um relatório). De um modo geral, tem como objectivos:
­ elucidar as problemáticas do sujeito, permitindo decidir o projecto terapêutico mais vantajoso
­ aprofundar temáticas específicas no sentido de uma investigação futura
O estudo de caso deverá sempre seguir um conjunto de procedimentos específicos:
· escolha do caso (determinada por variadas circunstâncias, por exemplo, apresentação em supervisão de material estruturado com vista a discussão sobre o tema, necessidade de produzir um relatório sobre a situação, interesse especial na problemática apresentada e desejo de acumular dados sobre a temática particular para estudo posterior)
· apresentação do caso, tendo em conta:
1. contexto e setting da entrevista (especificidade do ambiente em que a entrevista decorre)
2. orientação teórica (que influencia na escolha do setting, do número e duração de entrevistas, do tempo de intervalo entre entrevistas, das técnicas de entrevista, na atitude, no clima emocional, na importância dada às dimensões verbais e não verbais, na forma de recolher os dados, na escolha dos instrumentos)
3. decurso da entrevista (são importantes o clima emocional, a maior ou menor dificuldade no estabelecimento de uma relação, os conteúdos revelados, os detalhes não verbais, a situação pessoal, os núcleos de conflito, o momento e o impacto da aplicação de instrumentos e as fases da entrevista)
4. discussão e conclusões (momento de síntese de todo o material recolhido com integração da informação com a teoria)






Entrevista de Pré e Pós-Teste

Estas entrevistas implicam um processo de avaliação em que há testagem. A entrevista de pré-treste é uma primeira entrevista cujos objectivos são:
­ encontrar e delimitar o pedido, se este não for expresso pelo entrevistado
­ elucidar detalhadamente os objectivos da avaliação / testagem
­ apresentar o teste ou bateria de testes e explicar os procedimentos técnicos e processuais envolvidos
­ explanar os limites do(s) método(s) utilizado(s)
­ informar acerca das consequências que podem advir da testagem e eventuais usos posteriores da informação recolhida (a utilização de instrumentos de avaliação psicológica nem sempre tem em consideração a leitura integrante que a clínica defende, isto porque nem sempre o nosso cliente é a pessoa que pretendemos avaliar, como é o caso das avaliações em contexto jurídico-legal)
­ obter o consentimento informado da pessoa
A entrevista de pós-teste é uma entrevista de devolução de informação ou de conclusão, que inclui eventuais esclarecimentos de dúvidas e propostas de encaminhamento.

Entrevista Breve de Avaliação

As entrevistas breves de avaliação têm objectivos muito específicos, sendo portanto focais e de duração limitada. Implicam uma avaliação de uma questão precisa, sendo negligenciada toda a informação que não seja pertinente, e utilizam-se geralmente em situações de crise (por exemplo, avaliação do risco de suicídio, da necessidade de tratamento médico ou de internamento compulsivo, da aptidão do sujeito para prestar testemunho, do grau de indicação para determinado processo terapêutico) ou quando se pretende avaliar dimensões genéricas da personalidade de um sujeito que o tornem elegível para uma qualquer função.
Entrevista de Conclusão

As entrevistas de conclusão fazem-se quando é finalizado um processo de avaliação ou um processo terapêutico ou quando um processo terapêutico é interrompido por qualquer razão. Este tipo de entrevista supõe que se efectue:
­ o balanço do trabalho desenvolvido
­ a análise prospectiva do que ficou insuficientemente trabalhado e que se pode constituir como uma vulnerabilidade do sujeito
­ a análise prospectiva dos recursos adquiridos

Entrevista de Investigação

As entrevistas de investigação podem adquirir a forma de qualquer outro tipo de entrevista, mas tendo fins diferentes, nomeadamente, a recolha de dados para fins de pesquisa. Visto que pretendemos pesquisar determinados aspectos, a entrevista tem que ser minimamente estruturada e é importante
­ esclarecer os fins a que se destina a entrevista, de modo a obter o consentimento informado do entrevistado
­ não acentuar vulnerabilidades que não vão ser trabalhadas com a pessoa
­ não provocar a intensificação dos níveis de frustração do sujeito, sobretudo se houver alguma dimensão de sofrimento actual
­ não abordar conteúdos ou problemáticas significativos para o sujeito, mas que estejam fora dos objectivos da investigação

Entrevista de Avaliação do Estado Mental

As entrevistas de avaliação do estado mental são utilizadas sobretudo em contexto psiquiátrico, sendo mais exaustivas e estruturadas. Abordam essencialmente o grau de deterioração mental, os estados demenciais, o comprometimento neurológico, os estados confusionais de estado orgânico e a ingestão de drogas.
Técnicas de Entrevista

As categorias em que se inserem as técnicas de entrevista não são fechadas nem mutuamente exclusivas. Pelo contrário, são interdependentes e aparecem interligadas nas intervenções do entrevistador.

æ QUESTIONAMENTO - perguntas, de preferência abertas, que ponham a tónica na dimensão afectivo-cognitiva, com o objectivo de compreender o outro e aumentar a informação do entrevistador sobre o entrevistado (todas as perguntas que não tragam uma mais-valia nesse sentido ou não tenham utilidade em termos relacionais são redundantes); esta técnica pode ser usada como forma base para outro tipo de técnicas - o que nos permite distingui-las são os objectivos que perseguem
ó nem todas as perguntas podem ser feitas de forma directa porque:
å a sucessão de perguntas gera uma atitude passiva da parte do entrevistado
å qualquer entrevista visa ser mais do que um questionário, pretendendo ter acesso às dimensões da personalidade do sujeito
å as perguntas devem ser preferencialmente abertas permitindo que o próprio sujeito escolha a direcção que mais lhe convém, o que dá indicações preciosas sobre o funcionamento do sujeito (o que valoriza e o que escamoteia, os conteúdos em que se sente seguro e os que evita, etc.)

æ EXPLORAÇÃO - tem como objectivo investigar um assunto pertinente para a temática que está a ser discutida, com uma intencionalidade deliberada de compreender causas e consequências, processos de funcionamento e estratégias habitualmente utilizadas (deve ser utilizada para evitar a interpretação)

æ INTERPRETAÇÃO - implica dar um sentido que a pessoa não deu a algo que foi dito por ela, de acordo com a maneira de ver o mundo, o quadro de valores estéticos, éticos e morais e/ou o quadro teórico do entrevistador (é uma técnica de uso raro e restrito); na psicanálise, o objectivo da interpretação é permitir ao paciente ver aquilo que não podia ver antes, dar sentido ao incompreensível e transformar a regressão em progressão, sendo apenas eficaz no contexto de uma relação de confiança, segurança e empatia

æ REFLEXÃO - implica a devolução ao entrevistado de que o entrevistador está a compreender e a elaborar o que está a ser dito, tentando ir ao encontro dos afectos e conteúdos emocionais sem interromper o discurso (Craig chama a atenção para o facto de que o uso desta técnica implica da parte do entrevistador a capacidade para reproduzir material cognitivo ou emocional do entrevistado, o que nem sempre é fácil e implica uma razoável experiência de entrevistas)

æ REFORMULAÇÃO - pretende-se organizar o discurso, dizendo por outras palavras o que foi dito, de modo a que o entrevistador se certifique que a sua compreensão do discurso está a coincidir com aquilo que o entrevistado está a querer transmitir (por vezes, a reformulação inclui a clarificação e facilita a expressão dos conteúdos)

æ CLARIFICAÇÃO - destina-se a devolver ao outro de uma forma mais articulada o que foi dito (é já uma técnica terapêutica, porque promove o aumento do auto-conhecimento)

æ CONFRONTO - implica colocar lado a lado conteúdos diferentes sobre o mesmo tema ou incongruências entre o conteúdo verbal e o não-verbal (a confrontação pode ser destrutiva, despoletando sentimentos de agressividade, ou construtiva, podendo provocar algum retraimento inicial, mas acabando por dar azo a novos desenvolvimentos); esta técnica tem como objectivo aumentar o auto-conhecimento, esclarecer dúvidas do próprio entrevistador e clarificar dimensões específicas dos conteúdos ou da personalidade do entrevistado

æ AUTO-REVELAÇÃO - implica uma exposição do terapeuta, com o único objectivo de facilitar a expressão (deve ser feita em termo abstractos e/ou afectivos, nunca remetendo para situações concretas)
æ RESTRUTURAÇÃO - perante a expressão de desconforto em relação a uma situação, a restruturação permite mostrar outras formas de olhar para a mesma situação, reorganizando o material e os conteúdos expressos (técnica de cariz psicoterapêutico)

æ HUMOR - pretende desdramatizar e/ou tirar a carga ansiogénica a uma situação, sem banalizar os sentimentos do entrevistado, mas criando um distanciamento em relação ao problema (técnica muito sofisticada que pressupõe um grande conhecimento do paciente e da situação)

æ GENERALIZAÇÃO - implica enunciar a dominância de um conteúdo ou problemática, a partir da proximidade ou semelhança das várias temáticas abordadas ao longo da entrevista; pretende ajudar o entrevistado a compreender melhor o que está a ser dito, mostrando ao entrevistado como tende a avaliar situações ou pessoas de uma mesma forma ou como reproduz a diferentes níveis o mesmo tipo de situações, problemas ou sentimentos

æ FOCAGEM - tem como objectivo particularizar um aspecto específico, que parece ser mais relevante ou mais promissor para o desenvolvimento da entrevista (a focagem pode ser feita através da exploração, focando zonas de desconforto / mal- estar no discurso do entrevistado ou a partir de uma generalização prévia)
æ ECOAR - pressupõe um reconhecimento emocional daquilo que a pessoa disse (por exemplo, se a pessoa se afasta de um assunto que lhe provoca sofrimento, o ecoar leva-a a retomar o discurso, facilitando a expressão porque despoleta um sentimento de compreensão / empatia); é uma técnica que se dirige basicamente à relação, pretendendo o estabelecimento do vínculo relacional

æ SILÊNCIO - tem vários significados e o entrevistador precisa de perceber que tipo de silêncio está em jogo, encontrando-lhe um sentido:
Ä silêncio reflexivo (o entrevistado está a elaborar algo que foi dito, a procurar memórias ou recordações, a prescutar os próprios sentimentos e emoções; o entrevistador deve manter-se também em silêncio)
Ä silêncio defensivo (a pessoa não está a sentir-se confortável, adoptando um silêncio de oposição que pode ser altamente agressivo, o qual se inscreve na dinâmica da relação; o entrevistador deve tentar perceber o que é que desagrada na situação e afirmá-lo)
Ä silêncio de inibição (acontece habitualmente no início da entrevista e testemunha as dificuldades de relação, de contacto e de expressão verbal do entrevistado, mostrando algo da sua dinâmica psicológica; o entrevistador deve tentar criar um ambiente suficientemente continente para que a pessoa sinta que pode e consegue falar)
Ä silêncio de passividade ou regressão (aparece em sujeitos que habitualmente adoptando posturas passivas em relação aos outros; o entrevistador deve colocar perguntas até que a pessoa comece a falar, mas tendo o cuidado de impedir que a pessoa se mantenha numa postura infantilizada; desbloquear o silêncio de regressão pode ser muito complicado, porque por vezes já se instalou um registo relacional deste tipo, daí que devam ser privilegiadas as perguntas abertas com tónica afectivo-cognitiva em detrimento das perguntas fechadas)
Ä pausas entre sequências de discurso (instala-se quando a pessoa considera que já esgotou o assunto que estava a tratar; por vezes, retoma por si própria a palavra, mas normalmente o entrevistador deve intervir com generalizações ou clarificações acerca do que foi dito, ou explorações, retomando o assunto)

Pragmática da Entrevista Clínica

A entrevista clínica, seja qual for a teoria que a sustente, tem uma pragmática que decorre da comunhão de objectivos de todas as teorias psicológicas aplicadas à terapêutica: trabalhar no sentido de que o sujeito se sinta melhor. A relação é o principal instrumento de trabalho no contexto da entrevista clínica e a qualidade dessa relação está ligada a dois tipos de condições:

competência técnica e teórica e características internas do entrevistador


· ATITUDES E COMPORTAMENTO DO PSICÓLOGO
ô neutralidade e abstinência (não emissão de juízos de valor)
ô responsabilidade (mercê da assimetria instalada, é ao psicólogo que cabe a responsabilidade maior de garantir que o mínimo de factores externos influam negativamente no estabelecimento da relação e no desenvolvimento do processo)
ô disponibilidade (o psicólogo deve oferecer uma disponibilidade completa durante as sessões, mas não fora delas)
ô apresentação e expressão (devem manter-se dentro do registo de uma relação formal)
ô níveis de permissividade (diferentes possibilidades de diferentes psicólogos de lidarem com as atitudes e comportamentos dos seus clientes)
ô reacções a descargas emocionais (não se deve tentar parar tal descarga, nem proferir palavras de acalmia; é importante transmitir uma atitude global de acolhimento das manifestações emocionais do cliente sem incómodo pessoal ou crítica)
condições externas facilitadoras da relação (aspectos formais e informais que servem de base ao desenvolvimento da entrevista)


· SETTING - o setting envolve o espaço, o tempo, o papel dos intervenientes, os objectivos que perseguem e as regras básicas de funcionamento; estas condições são variáveis de quadro teórico para quadro teórico, mas pretende-se que se mantenham constantes para o mesmo terapeuta
· TEMPO - o respeito pelos horários é imprescindível porque o setting da entrevista deve ser organizador - o tempo de uma entrevista deve corresponder a um tempo importante para o cliente, como tempo de condensação e de expressão de afectos que tem que ser interiorizado enquanto tal; a primeira entrevista de avaliação pode durar entre 30 minutos a 1 hora e meia, enquanto que as sessões terapêuticas durarão cerca de 50 minutos
· ESPAÇO - o espaço ideal seria aquele que não provoque repulsa ou distracção, acolhedor, mas não demasiado personalizado; as cores devem ser pastéis, a luz deve ser amarela e não muito intensa, as cadeiras devem ser confortáveis, dispostas face a face, a sala deve ser insonorizada e devem existir aparelhos de aquecimento e arrefecimento
· PEDIDO - a entrevista clínica como relação particular e significativa só pode acontecer com o desejo ou com o acordo expresso do cliente, daí que:
ô a entrevista deva ser também o espaço de relação que permita o ganho de consciência de que se está a pedir qualquer coisa
ô a entrevista deva ser o espaço de organização de um pedido realista


Referências Bibliográficas

Craig, R. (1989). Clinical and diagnostic interviewing. New York: Jason Aronson.

Leal, I. (1999). Entrevista clínica e psicoterapia de apoio. Lisboa: ISPA.

Psicologia Geral


PSICOLOGIA

Psicologia Geral

Perspectiva Sincrónica – Descrição e explicação do comportamento humano. Analisa o processo como sendo algo actual. Preocupa-se em saber quais são os processos responsáveis pela aprendizagem, percepção, memória…

Psicologia do Desenvolvimento

Perspectiva Diacrónica – Analisa e avalia os processos mentais ao longo do tempo, considerando a sua evolução. Preocupa-se em explicar como se processa o próprio desenvolvimento dos diferentes processos (como e quando apareceram os processos mentais responsáveis pela aprendizagem, memória…

Pressupostos sobre a Natureza Humana

1. Construção Individual do Sujeito

§ Sujeito passivo
§ Desenvolvimento pressupõe reprogramação inata, através de um processo de maturação endógeno e acumulação simples de aprendizagens
§ O indivíduo depende de impulsos, motivos ou traços de personalidade ou de uma realidade social e cultural que se impões

2. Construção Social do Sujeito
§ Sujeito activo
§ Não responde ao meio como ele é, mas em função da interpretação que faz
§ Vazio individualista
§ Estados internos explicados por níveis de análise inter-individuais
§ Indivíduo envolvido nas reorganizações qualitativamente diferentes do conhecimento

Papel do Indivíduo no seu próprio Desenvolvimento

Activo – Traz ao ambiente o seu próprio programa de desenvolvimento, usando o mesmo, para facilitar a sua implantação. Forte controlo do indivíduo sobre o curso da sua vida e dos seus comportamentos (Piaget, Kant)

Passivo – Moldado pelos factores ambientais externos (cultura, normas e valores sociais…), com um controlo reduzido (Locke – Tábua rasa)

Processamento do Desenvolvimento Psicológico

Contínuo – Aprendizagem Cumulativa. Sofre modificações graduais, sem interrupções

Descontínuo – Processa-se por etapas/estádios caracterizados pela aquisição de único conjunto de processos cognitivos. Estádios qualitativamente diferentes com processos diferentes







Individual




Sujeito Activo Sujeito Passivo




Social

Teorias do Desenvolvimento Humano

1. Psicanálise (Freud)

§ Define desenvolvimento como uma interacção entre pulsões (necessidades biológicas com energia psicológica) do indivíduo e pressões ambientais (normas sociais)
§ Todo o desenvolvimento sócio-emocional e da personalidade do ser humano, resulta de uma interacção, quase oposição, entre estas forças impulsivas que o ser humano possui dentro de si desde a nascença. (perspectiva genética e biologia e pressões ambientais e constrangimentos sociais – normas sociais)
§ Este conflito entre as exigências instintivas e as da sociedade seriam um combate interno e inconsciente, que seria permanente e que ocorreria ao longo de toda a vida do indivíduo
§ A perspectiva freudiana defende que não há dissociação entre o desenvolvimento psicológico e o desenvolvimento sexual, considerando deste modo, que o desenvolvimento do ser humano é um desenvolvimento psicossexual
§ Freud considera que o desenvolvimento humano é descontínuo (formado por estádios diferentes), em que o papel do indivíduo é passivo (em relação ao meio), cuja importância do património genético se sobrepõe ao aprendido; e invariável (os estádios são iguais para todos os indivíduos)

1.1. Mente Humana

Consciente – Constituído pelas representações presentes na nossa consciência e conhecido pela introspecção (imagens, lembranças, ideias)

Subconsciente – Faz a ligação entre o consciente e o inconsciente e corresponde, na imagem do icebergue, a uma zona flutuante de passagem entre a parte visível e a oculta que varia o seu grau de emersão/imersão

Inconsciente – Zona do psiquismo constituída por pulsões, tendências e desejos fundamentalmente de carácter afectivo-sexual, a qual não é passível de conhecimento directo

1.2. Aparelho Psíquico

Id
§ Instância constituída por pulsões inatas e por conteúdos, como os desejos, que são posteriormente recalcados
§ As pulsões procuram o prazer e uma satisfação imediata
§ O id não é regido por preocupações lógicas, temporais ou espaciais
§ O id impulsiona e pressiona o ego e a sua actividade é inconsciente



Ego
§ Instância que se constitui diferenciando do id no primeiro ano de vida
§ A sua energia vem-lhe das pulsões do id
§ Tem preocupações lógicas, de espaço e de tempo, assim como de coerência entre a força do id e os seus constrangimentos da realidade (orienta-se pela realidade)
§ O ego opõem-se a certos desejos do id
§ A sua actividade é sobretudo consciente, embora uma parte seja inconsciente, como os mecanismos de defesa do ego

Superego
§ Instância formada a partir de uma parte do ego, após o complexo de Édipo/Elektra
§ Constituído pela interiorização das imagens idealizadas dos pais e das regras sociais
§ Base da consciência moral

1.3. Estádios de Desenvolvimento

Estádios de Desenvolvimento Características
Oral(1º ano de vida) § Zona erógena: boca e lábios§ Actividades associadas à obtenção do prazer: chuchar, mamar§ Mãe como principal fonte de prazer e satisfação de necessidades§ Estabelecimento da relação de vinculação com a figura materna§ Na época do desmame, surge o conflito entre o que deseja e a realidade§ O id existe desde o nascimento§ O ego forma-se pela consciência de sensações temporais
Anal(2-3 anos) § Zona erógena é o ânus, região intestinal e a mucosa intestinal§ Há uma ambivalência de sentimentos, na medida em que, por um lado, a estimulação desta zona provoca dor e prazer à criança§ Este sentimento de ambivalência reflecte-se também, no desejo de cedência ou oposição às exigências de condições/regras de higiene propostas pela mãe
Fálico(4-6 anos) § A zona erógena é a região genital§ Actividades associadas à obtenção do prazer – manipulação dos órgãos genitais§ Evidência do complexo de Édipo (atracção pelo progenitor oposto ao mesmo sexo e agressividade pelo progenitor do mesmo sexo, que é visto como um rival)§ Sentimento ultrapassado, quando a criança se identifica com o progenitor do mesmo sexo§ Formação do superego, onde as normas e proibições impostas no complexo de Édipo são agora interiorizadas
Latência(7 anos à puberdade) § Criança esquece alguns acontecimentos e sensações vividos nos primeiros anos de sexualidade, através de um, processo que se designa por amnésia infantil§ O estádio de latência caracteriza-se por uma diminuição total ou parcial da actividade sexual§ A criança com mais calma e disponibilidade interior, centra as suas energias nas aprendizagens escolares e sociais
Genital(Depois da puberdade) § Ressurgimento dos impulsos sexuais e agressivos – Complexo de Édipo volta a ser reactivado, mas a sua liquidação está ligada ao luto das imagens dos pais idealizados§ Alguns adolescentes face às dificuldades que encontram, regridem a fases de desenvolvimento anteriores§ Sexualidade passa a ser dirigida aos outros (sexo oposto)§ Satisfação experienciada através da consumação do acto sexual e relação heterossexual

2. Comportamentalismo

Realçam a importância da aprendizagem na adopção de novos comportamentos
Pressupostos:
§ Deve-se estudar o que é observável e não os processos mentais
§ Qualquer coisa é aprendida desde que existam competências e condições ambientais (agressão, Bandura, Ross e Ross, 1963)
§ Aprende-se por isso, o ensaio e erro por observação, e o comportamento é fixado por um sistema de reforços (recompensas ou punições)
§ O conhecimento científico só é possível através da investigação experimental
§ Considera-se que o desenvolvimento humano é contínuo, em que o papel do indivíduo é passivo (em relação ao meio) e que cuja contribuição do que é aprendido se sobrepõe ao património genético

2.1. Condicionamento Clássico


A experiência de Pavlov

§ Pavlov ao estudar a secreção salivar nos cães constatou que os animais salivavam sempre que o alimento lhes era colocado na boca
§ Ao repetir a experiência com os mesmos cães, observou que os animais salivavam: ao ver o alimento, ao ver a pessoa que habitualmente lhes trazia o alimento e ao ouvir os passos destas pessoas
§ Estas observações levaram-no a pôr a hipótese de que estava perante uma forma de aprendizagem
§ Para se certificar que estímulos estranhos não afectariam a experiência, procurou controlar as condições em que esta experiência decorre
§ Quando o experimentador apresentava a carne ao animal, ele salivava. Neste caso, a salivação é uma resposta não condicionada (inata). O estímulo que a provocou designa-se por estímulo incondicionado; ex.: carne)
§ Posteriormente, Pavlov fez acompanhar a carne de um toque de campainha (estímulo neutro) e verificou que o cão salivava
§ O experimentador repete várias vezes esta associação de estímulos, o que leva o cão a esperar que a carne apareça ao toque da campainha. Após algum tempo, Pavlov constata que o cão saliva quando ouve a campainha

Reflexo Condicionado – Resposta apreendida a um estímulo inadequado. A aprendizagem por condicionamento clássico resulta da associação entre estímulos e respostas que se associam e das quais resulta uma mudança de comportamento. (reflexo condicionado – resulta da aprendizagem)

Objectivo – Alargar o conceito de reflexo das reacções inatas aprendidas. Se se experimentar soar várias campainhas, sendo que, a um toque de companhia se segue comida, o cão vai começar a salivar sempre que ouça a campainha (mesmo que a comida não lhe seja entregue)

Reflexo Incondicionado – Resulta do instinto

Extinção – Designa a diminuição e/ou extinção da resposta condicionada devido à ausência do estímulo não condicionado. Pavlov constatou que, quando fazia soar a campainha, repetidas vezes, sem apresentar carne, o cão salivava cada vez menos, até deixar de salivar

Habituação – O organismo aprende a reconhecer um acontecimento como familiar, mas não aprende nada sobre a relação entre esse acontecimento e outras circunstâncias

Noção de Contingência – Processar um acontecimento que ocorra quando a comida é entregue e não quando esta não é entregue. O condicionamento ocorre quando existe emparelhamento EC-EI, mas também, quando existe emparelhamento em que a ausência do EC acompanha a ausência de EI (a contingência é temporal – relação temporal associada à resposta e à consequência)

2.2. Condicionamento Operante

A Experiência de Thorndike

Aprendizagem por tentativas e erros – Organismo num estado activo (onde tem de haver movimento). ex.: Experiência de Thorndike: Gatos esfomeados que, após várias tentativas e erros, conseguiram accionar o mecanismo que lhes abria a porta recebendo alimentos quando saíam

Lei do Efeito – Se a resposta for recompensada, fortalecer-se-á; se não houver recompensa ou se houver castigo, a resposta enfraquecerá

Reforço – Consequência positiva que fortalece um comportamento

Reforço Positivo – O estímulo cuja presença serve para manter ou fortalecer a resposta. ex.: Uma mãe em vez de ameaçar o filho com uma punição (se não estudares não te deixo ir à festa), pode reformular a ameaça de castigo de um modo positivo: se estudares, deixo-te ir à festa

Reforço Negativo – O estímulo quando eliminado põe fim a uma situação desagradável. Serve para manter ou fortalecer a resposta

Punição – Diminuição da probabilidade de ocorrência de um determinado comportamento, através da aplicação de uma consequência desagradável

§ Thorndike afirmava que a recompensa era muito mais eficaz no reforço da aprendizagem do que a punição no enfraquecimento de um comportamento indesejável
§ Skinner via maiores vantagens na aplicação do reforço positivo, uma vez que este, diz ao sujeito o que deve fazer/orientando-o assim, para o comportamento desejável

Condicionamento Clássico vs Condicionamento Operante

Itens C. Clássico C. Operante
Ocorrência durante o Condicionamento O estímulo não condicionado e o estímulo neutro associam-se A resposta é acompanhada de consequências
Resposta Involuntária Voluntária, instrumental
Atitude do Sujeito Passiva (não está em movimento), mecânica Activa (tem de haver movimento), toma iniciativas

3. Aprendizagem Social

§ Esta teoria realça a importância da aprendizagem na aquisição de novos comportamentos, logo, no desenvolvimento humano
§ Os indivíduos apontam novos comportamentos por modelação (através da imitação)
§ A aprendizagem por observação resulta da interacção e da imitação social

Pressupostos:
§ Deve-se estudar o que é observável e não os processos mentais
§ Qualquer coisa pode ser aprendida, desde que existam competências e condições ambientais
§ Aprende-se por ensaio–erro ou por observação, sendo o comportamento fixado por um sistema de reforço – recompensas ou punições
§ O conhecimento científico só é possível através da investigação experimental

Segundo Bandura, a modelagem ou aprendizagem por observação ocorre através de 4 fases, sendo as 2 primeiras essenciais:
1. Atenção Selectiva (atenção dada ao modelo)
2. Processo Mnésico (memorização)
3. Avaliação das Capacidades e Competências (sou ou não capaz de imitar o modelo)
4. Reforços (reflexão sobre as consequências positivas ou negativas da modelagem)

Bandura, Ross e Ross (1961)

Hipóteses:

§ Os sujeitos que observam os modelos agressivos irão demonstrar maior número de comportamentos agressivos em situações frustrantes futuras do que os sujeitos que, apesar de igualmente frustrados, não foram expostos a modelos agressivos
§ Quanto mais afastado da realidade estiver o modelo, mais fraca será a tendência do sujeito para lhe imitar o comportamento
§ Quanto maior for a ansiedade face a comportamentos agressivos, menor a quantidade desse tipo de comportamentos

1ª Etapa
As crianças eram expostas a modelos agressivos diferentes, em 4 condições experimentais diferentes:

Condição 1 (“Real”) – Comportamento presenciado pela criança
Condição 2 (“Filme”) – Comportamento agressivo visto num filme
Condição 3 (“Desenho–Animado”) – Comportamento agressivo visto em desenho–animado
Condição 4 (“Condição do Controlo”) – Não há modelo agressivo

2ª Etapa
Criação de uma situação frustrante – A criança é introduzida numa sala cheia de brinquedos, mas não lhe é permitido brincar

Resultados

§ Os sujeitos expostos a modelos agressivos apresentam maior quantidade de comportamentos agressivos (imitados ou não) do que os sujeitos do grupo de controlo
§ Verifica-se que os sujeitos das condições experimentais apresentam maior quantidade de comportamentos físicos e verbais agressivos imitados do que os sujeitos da condição de controlo
§ Apesar do grupo “modelo real” apresentar significativamente maior número de comportamentos agressivos do que o grupo “desenho–animado, estas não diferem significativamente do grupo “filme”
§ Os rapazes apresentam maior quantidade de comportamentos agressivos do que as raparigas

4. Teorias Cognitivas do Desenvolvimento

4.1. Desenvolvimento Cognitivo de Piaget

§ Para Piaget, o desenvolvimento é fruto de factores biológicos de maturação da experiência do mundo, da inter-relação e transmissão social e a equilibração
§ A equilibração é um mecanismo interno e auto-regulador, través do qual uma nova aquisição se deve equilibrar com as anteriormente adquiridas. É pela equilibração que o sujeito se adapta ao meio, isto é, que a sua inteligência progride no sentido de um pensamento cada vez mais complexo
§ A inteligência é a capacidade de enfrentar situações novas e de se adaptar a ela de uma forma rápida e eficiente. É também a capacidade de utilizar conceitos abstractos, de fazer relações e de aprender rapidamente. Existem 3 tipos de inteligência: prática, a social e a conceptual/abstracta
§ Para este autor, o desenvolvimento é uma adaptação ou equilibração sucessiva e progressiva do ser humano ao ambiente que o rodeia (crescimento intelectual desde a infância até à idade adulta)
§ Existem funções invariantes (competências que nos acompanham toda a vida, formas de adaptação humana), em estruturas variáveis (manipulação de um objecto, observação)
§ A sua teoria é chama de estruturalismo, porque defende a existência de estruturas mentais que se vão desenvolvendo à medida que a criança cresce e interage. É chamada também de interaccionismo e construtivismo, porque acredita que o comportamento do indivíduo e a sua inteligência, resultam de uma construção progressiva do sujeito em interacção com o meio, interacção essa, em que o sujeito tem um papel activo
§ O desenvolvimento é um processo qualitativo – as estruturas vão-se acomodando e amadurecendo à medida que o ser vai crescendo, mas sempre existiram dentro dele, embora não estivessem ainda desenvolvidas
§ A hereditariedade, a maturação interna dos sistemas nervoso e endócrino, bem como o crescimento orgânico têm um papel importante no processo de desenvolvimento. Ainda que a maturação dependa fundamentalmente de factores biológicos, a estimulação do meio pode acelerar ou retardar o processo de maturação (a experiência física pode ou não acelerar esse processo de maturação)
§ Desenvolvimento humano é descontínuo (através de estádios), e o papel do indivíduo é activo
§ Para Piaget, a inteligência não é inata, porque o conhecimento vai-se construindo ao longo da vida. Todo o sujeito à medida que se vai construindo tem de passar por certas fases, como:


Assimilação – Processo mental que consiste numa incorporação dos dados provenientes do meio na actividade cognitiva. É um movimento de integração do meio no organismo. É um processo em que o meio é interpretado, segundo os esquemas que a criança possui na altura

Acomodação – Processo mental que consiste na configuração dos dados obtidos pela assimilação na actividade cognitiva. É um movimento do organismo no sentido de se submeter às exigências exteriores, adequando-se ao meio. É o modo como a criança modifica os seus esquemas à medida que continua a interagir com o meio

Adaptação – Processo de equilíbrio entre o organismo e o meio. Resulta da interacção entre a assimilação e a acomodação. A evolução cognitiva faz-se pela cada vez melhor adaptação do sujeito ao meio

Equilibração – Processo interno de regulação entre a assimilação e a acomodação, contudo, todo o equilíbrio induz um novo desequilíbrio. É precisamente este movimento de equilíbrio/desequilíbrio que permite a adaptação

Estádios de Desenvolvimento

1. Sensório-Motor (0-2 anos)

§ A criança não raciocina, apenas tem uma inteligência prática que incide na manipulação dos objectos, em que utiliza a percepção e movimentos organizacionais em “esquemas de acção”
§ Os primeiros esquemas de acção são reflexos inatos
§ A criança só por volta dos 8 meses é que começa a ter a noção da permanência do objecto
§ Até ao 10 meses, a criança percepciona o mundo como caótico, pois este não é estruturado em função do tempo e espaço
§ Até aos 12 meses, a criança vai ter actos intencionais para obter o que deseja
§ A criança não distingue entre objectos estáveis e acontecimentos transitórios e nenhuma diferenciação entre o “eu” e o “não eu”
§ Aos 15/18 meses as birras são essenciais para o desenvolvimento humano (é uma forma do “eu” se afirmar – plano extremamente egocêntrico)
§ Aos 18 meses surge a linguagem
§ A partir dos 18 meses, a criança de uma forma interiorizada, consegue uma invenção rápida de novos meios para resolver problemas. É essa interiorização, que lhe permite uma súbita compreensão dos problemas
§ Aos 24 meses, começa a diferenciação – noção do “eu” e dos outros. Construção do “eu” :
Reacção circular 1º - Reajo sobre o meu próprio corpo
Reacção circular 2º - Reajo sobre o meio envolvente (acomodação)
Reacção circular 3º - Primórdios da inteligência

2. Pré-Operatório (2-7 anos)

§ Desenvolvimento da língua, do raciocínio
§ A criança caracteriza-se pela capacidade de representar algo por meio de um símbolo (função simbólica)
§ A criança desenvolve um jogo, a função lúdica que lhe permite começar a compreender a sociedade
§ A criança coloca questões mas não consegue debatê-las
§ A principal característica deste estádio ao nível do pensamento é o egocentrismo. O egocentrismo define-se pelo entendimento pessoal de que o mundo foi criado para si e pela incapacidade de compreender as relações entre as coisas. A criança não compreende o ponto de vista do outro, porque se centra no seu ponto de vista – está auto-centrada
§ Há uma ausência de conservação … de quantidade, do número e da substância. Basicamente, as crianças estão prisioneiras da sua experiência perceptiva imediata e tendem a tomar a aparência pela realidade

ð Pensamento Pré-Conceptual (2-4 anos) – Domina o pensamento mágico, em que os desejos se tornam realidade, sem preocupações lógicas. Uma imaginação prodigiosa permite que tudo se explique

Animismo – Atribuição de emoções e pensamentos a objectos inanimados, Realismo, Finalismo, Artificialismo – É a explicação de fenómenos naturais como se fossem produzidos pelos seres humanos para lhes servir como todos os outros objectos (a praia tem areia para nós brincarmos)

ð Pensamento Intuitivo (4-7 anos) – Surge com uma certa descentração cognitiva, e vai permitir quer a criança solucione alguns problemas e possibilitar muitas aprendizagens. No entanto, este pensamento é irreversível, i.e., a criança está sujeita às configurações perceptivas sem compreender a diferença entre as transformações reais e aparentes

3. Operações Concretas (7-11/12 anos)

§ A criança liberta-se do seu egocentrismo
§ A criança tem um pensamento lógico com a capacidade de fazer operações mentais. As acções introduzidas do estádio pré-operatório tornam-se reversíveis – transforma-se em operações. Contudo, estas operações são concretas, i.e., são efectuadas na presença física dos objectos
§ As crianças não são capazes ainda de pensar de forma abstracta
§ A reversibilidade é a marca por excelência do pensamento lógico, deste modo, o pensamento é bastante flexível, porque e a criança já é capaz de executar uma acção em 2 sentidos
§ A criança tem uma autonomia intelectual (uma vez que esta compreende e explica situações problemáticas, graças à reversibilidade, mas a criança realiza somente operações a nível material)
§ Descentração – Capacidade de resolver problemas atendendo a vários pontos de vista e dimensões. e.g. ordenar 10 varinhas ascendentemente, cujo comprimento difere ligeiramente. Esta criança não declara que as varinhas são grandes ou pequenas, mas que C é maior que B e ao mesmo tempo que C é menor que E



4. Operações Formais (11-12/15-16 anos)

§ Caracteriza-se por um pensamento abstracto, uma inteligência formal e pelo exercício de raciocínio hipotético-dedutivos (facilidade do indivíduo em colocar hipóteses e fazer deduções)
§ O raciocínio apoia-se na experiência para chegar à conclusão
§ Nasce uma nova forma de egocentrismo, que consiste na ideia do adolescente, do mundo se submeter aos seus sistemas e não estes à realidade
§ O adolescente pensa que tem a capacidade de resolver todos os problemas que surgem, bem como, pensar que as suas concepções são as melhores e as mais correctas

4.2. Desenvolvimento Moral

O estudo do desenvolvimento moral é uma área autónoma do estudo do desenvolvimento humano e centra-se nas seguintes questões: como é que o ser humano é capaz de se distanciar de si próprio e fazer uma avaliação moral de si e dos outros? Quando e como é que formamos o pensamento moral? O desenvolvimento moral humano é alvo de diversas teorias:

I. Teorias Biológicas
§ Teorias que atribuem o comportamento e pensamento morais às características biológicas do homem

Para Hobbs:
§ O homem está por natureza centrada em si próprio
§ O homem é por natureza ruim e movido por instintos egoístas
§ O homem é capaz de fazer algo bom só para atingirem os seus objectivos

Para Rosseau (1762):
§ O homem tem uma natureza boa, positiva – estrutura moral positiva (ideal de que quando nascemos somos bons, mas que a sociedade nos transforma em pessoas más)
§ “O bom selvagem” – As pessoas nascem naturalmente boas, a sociedade é que as estraga (escola progressista dos anos 60-70)

Para Chomsky (1969):
§ Estrutura a partir da linguística
§ Já que as pessoas são boas por natureza, o respeito e a tolerância seriam automáticos, se as pessoas pudessem exprimir a sua criatividade sem pressões político-sociais
§ O ser humano é um ser criativo, com a uma actividade relativa na construção da moralidade no seu desenvolvimento

I.1. Sociobiologia
Para MacDonald (1988):
§ A moralidade é uma função involuntária da adaptação da espécie e de sobrevivência genética

II. Teoria da Aprendizagem Social

Para Bandura (1963):
§ A moralidade é um produto das contingências externas do ambiente social que a criança aprende por observação, reforços e punição – modelagem

III. Teorias Cognitivas
III.1. Desenvolvimento Moral de Piaget
§ A criança é um ser activo que constrói o seu conhecimento sobre as diferentes áreas do mundo, através das transformações qualitativas nas suas estruturas/estádios. Assim, à percepção moral do muno segue também um desenvolvimento por estádios
Estádios Características
Amoral(0-5 anos) § Não existe a noção de bem e do mal§ O comportamento é regulado pelo exterior (pais, avós..)
Moralidade Heterónima(5-10 anos) § Classificação da realidade em bem e mal§ Consciência da existência de regras exteriores a si (nos adultos, a regulação da moralidade é unilateral e externa, ou seja, heterónima)§ As regras são rígidas e inalteráveis§ Há uma crença numa justiça imanente (as transgressões serão punidas) – “teoria do mundo justo” (Lerner, 1976)§ O valor dos actos vai-se transferindo das consequências para as intenções
Moral Autónoma(>10-12 anos) § Passagem dos conceitos absolutos aos conceitos relativos§ Passagem da centração de si próprio à cooperação (centração sobre a relação com/entre os pares)§ Interacção social e o modelo de interiorização da regra da reciprocidade

III.2. Desenvolvimento Moral de Kohlberg

§ Kohlberg segue alguns pressupostos de Piaget na construção da sua teoria do desenvolvimento moral
Estruturalismo – Os níveis de desenvolvimento moral são qualitativamente diferentes e o sujeito
muda de estádio quando forma estruturas que lhe permitem fazê-lo
Cognitivismo – Estudo das cognições/pensamentos dos valores morais e de justiça
Distintividade

Moralidade – Valores, raciocínios ou cognições que orientam o comportamento das pessoas em determinadas situações
§ Através da análise das respostas dos sujeito a dilemas morais, Kohlberg elaborou um conjunto de estádios que marcam o desenvolvimento moral
§ Segundo Kohlberg, existe uma progressão de uma moralidade primitiva orientada pelo medo do castigo ou pelo desejo de ganhos, passando por estádios em que o certo e o errado são definidos convencionalmente (pelo que o os outros dirão), até ao estádios mais elevados em que estes princípios morais interiorizados passam a ser nossos

Nível Estádio Orientação Moral
Pré-Convencional(Maioria das crianças antes dos 9 anos, alguns adolescentes e adultos) 1 Orientação para o castigo (1. a moral do castigo)
2 Orientação calculista e instrumental, pura troca, hedonismo e pragmatismo (2. a moral do interesse)
Convencional(Maioria dos adolescentes e adultos) 3 Orientação para o “bom menino” e para uma moralidade de aprovação social e interpessoal (3. a moral do coração)
4 Orientação para a manutenção da lei, da ordem e do progresso social .4. (a moral da lei)
Pós-Convencional(Minoria de adultos com idades superiores a 20-25 anos) 5 Orientação para o contracto social, para o relativismo da lei e para o maior bem do maior número (5. a moral do relativismo da lei)
6 Orientação para os princípios éticos universais, reversíveis prescritos e auto-escolhidos (6. a moral da razão universal)

Moralidade Pré-Convencional

§ Reflecte o nível moral dos sujeito “para quem as normas e as expectativas sociais permanecem exteriores ao self”
§ A justiça e a moralidade reduzem-se a um conjunto de normas externas a que se obedece para evitar o castigo ou então para satisfazer desejos e interesses concretos e individualistas (egocentrismo)
§ A perspectiva sócio-moral subjacente é a de alguém que está fora da sociedade, sociedade que é pensada em função dos interesses sociais ou individuais (não generalizáveis nem universalizáveis)
Moralidade Convencional

§ Expressa o nível de moral dos sujeitos que já interiorizaram as normas e expectativas sociais, i.e., o justo e o injusto já não se confundem com o que leva ao castigo ou à recompensa, definindo-se pela conformidade às normas sociais e morais vigentes
§ É aquele que procura viver de acordo com o que é socialmente aceite e partilhado. O que procura cumprir os seus deveres e respeitar a ordem estabelecida
§ Orientação para uma moralidade interpessoal, i.e., há uma tendência para se agir de modo a ser-se bem visto aos olhos dos outros e a merecer-se o seu respeito, auto-estima e consideração
§ Perspectiva de alguém que vive em sociedade e “que subordina as necessidades individuais ao ponto de vista e às necessidades do grupo”

Moralidade Pós-Convencional

§ O valor moral das acções depende menos da sua conformidade com as normas morais e sociais vigentes e mais da sua conformidade a princípios éticos universais, tais como o direito à vida, à liberdade ou à justiça
§ A pessoa que tende a compreender as normas da sua relatividade, como regras de acção cuja finalidade é salvaguardar que esses princípios sejam respeitados em contextos concretos. Caso isso não aconteça, tais leis devem ser transformadas e em última instância, desobedecidas
§ O indivíduo está antes da sociedade, e esta não faria sentido se não estivesse ao serviço desses direitos individuais fundamentais, ou seja, direitos universalizáveis, reversíveis e prescritos

III.2.1. Dilemas de Kohlberg

§ A medida do desenvolvimento do raciocínio moral em adolescentes e adultos é feita através ao confronto de sujeitos com uma série de histórias que colocam um dilema moral - os dilemas de Kohlberg

4.3. Teoria do Desenvolvimento Sócio-Cognitivo de Selman

§ Selman, 1980, tinha como objectivo estudar as bases sócio-cognitivas do desenvolvimento social e do comportamento humano (como se desenvolvem as concepções e o raciocínio sociais)
§ Nesta perspectiva, interessa menos determinar as causas do comportamento social, do que perceber que a criança interage com os outros a partir de um certo nível de compreensão em si e em relação ao outro

Pressupostos:
§ O conceito social integra, para além duma classificação exterior, a ideia de que determinado comportamento tem um significado interpessoal para os seus participantes
§ O conhecimento do nível de compreensão social que está na base do comportamento, é essencial para entender e lidar com esse comportamento
Contribuições:
§ Os níveis de desenvolvimento cognitivo e social de Piaget, para relacionar as diferenças de compreensão social com as diferenças hierárquicas que se estabelecem na construção sócio-cognitiva das relações e das situações sociais e na coordenação entre diferentes perspectivas sociais. Selman também estrutura estes diferentes modos de compreensão interpessoal em estádios
§ A perspectiva da criança sobre o seu próprio desenvolvimento (Baldwin, 1906 e Mead, 1934), para entender a perspectiva da criança sobre o desenvolvimento e o significado das relações sociais

Estudo

1 – “Duas crianças partilham as camas de um beliche. A criança de 5 anos dormia na cama de
cima e a de 3 na de baixo. Numa noite, depois das luzes estarem apagadas, mas antes dos pais
virem terem vindo, como de costume, dar-lhes um beijo de boa noite, o irmão mais velho sugere ao mais novo que, sem barulho, troquem de lugares no beliche. Quando os pais chegam ao quarto, encontra os dois em grande risota, escondidos debaixo dos cobertores. As gargalhadas aumentam mais quando os pais lhes trocam os nomes”

Análise
O comportamento é nas duas crianças é idêntico – grande divertimento. O motivo do divertimento é diferente para as 2 crianças: a criança mais nova rir-se-á sempre que os adultos tiverem um comportamento incorrecto, a criança mais velha ri-se porque julga que enganou os pais

2 – “Dois anos mais tarde, repete-se a mesma cena, agora assiste-se a dois comportamentos diferentes”

Análise
A criança mais nova, agora com 5 anos diverte-se e ri às gargalhadas quando julga que conseguiu enganar os pais, mas a criança mais velha, agora com 7 anos, fica em completo silêncio quando os pais entram e trocam o nome das crianças – percebeu que não conseguiam enganar os pais e que estes fingiam estar enganados para alinhar no jogo com os filhos

Domínios e Temas de Compreensão Interpessoal

Individual Amizade Grupo de Pares Relação Pais/Filhos
1. Subjectividade2. Consciência do próprio 1. Formação de Amizade2. Intimidade/Proximidade 1. Formação2. Coesão/Lealdade 1. Formação2. Amor e Elos Emocionais3. Obediência4. Punições
3. Personalidade4. Mudança de Personalidade 3. Confiança/Reciprocidade4. Ciúmes5. Resolução de Conflitos6. Término 3. Conformidade4. Regras e Normas
5. Tomada de Decisão6. Liderança7. Térmico 5. Resolução de Conflitos

Nível de Desenvolvimento Conceito de Pessoa Conceito de Relação
Nível 0Perspectivação Indiferenciada e Egocêntrica(3-6 anos) § Indiferenciada – Confusão entre o objectivo (físico) e o subjectivo (psicológico), entre acções e pensamentos § Egocêntrica – “eu” e o outro são diferenciados física, mas não psicologicamente – ele pensa o que eu penso
Nível 1Perspectivação Diferenciada e Subjectiva(5-9 anos) § Diferenciada – Distinção entre o físico e o psicológico, entre o intencional e não intencional§ Características soltas § Subjectivas – Diferenciação das perspectivas subjectivas de si e do outro por via unilateral § Admite que há outra perspectiva, mas é centrado em si, não vê o outro como um ser diferente
Nível 2Perspectivação Auto-Reflexiva na 2ª Pessoa e Recíproca(7-12 anos) § Auto-Reflexiva (2ª pessoa) – “Eu” como observador do outro de mim, o outro como observador de mim e de si próprio§ Aparência da realidade § Recíprocas – Relativização das perspectivas§ Pessoa como única§ Aparência – Realidade para enganar o outro§ “Eu sei que ele sabe que eu sei”
Nível 3Perspectivação na3ª Pessoa e Mútua(10-15 anos) § Na 3ª pessoa – Sistemas consistentes de atitudes e valores§ “Eu” e os outros como actores observadores § Mútuas – Necessidade de coordenação das duas objectivas para a relação ser satisfatória
Nível 4Perspectivação em Profundidade eSócio-Simbólica(12 anos - fase adulta) § Em Profundidade – Acções psicologicamente determinadas, mas não necessariamente compreendidas§ Noção de personalidade § Sociais - Simbólicas – Relações em múltiplos níveis (central, não verbal), num quadro social normativo
Metodologia
Para descobrir qual o estádio de raciocínio social em que determinada criança se situava, Selman fazia entrevistas semi-estruturadas, que permitiam acompanhar e testar o pensamento da criança. Esta entrevista tinha como base uma história que implicava um dilema, uma escolha. As questões eram feitas em diversos contextos:
Contexto Geral – “O que é para ti um bom amigo?”
Contexto Hipotético – “Achas que a menina da história foi uma boa amiga?”
Experiência Pessoal – “Como é o teu melhor amigo?”

5. Teorias de Interacção Social e Desenvolvimento

§ É uma micro-análise:
em que a língua é descontextualizada (timbres, risos..)
em que não se analisa somente A e B, mas as suas interacções
em que são registadas observações directas do comportamento
que serve para avaliar as interacções entre pais e filhos ao longo do desenvolvimento
§ Estudo das técnicas disciplinares: área muito importante da psicologia social:
forma como os pais ensinam as regras aos filhos e crenças que temos – interiorização de normas
§ Técnicas:
Controlo ,Regulação, Elo parental, Afirmação do poder (uso e ameaça da força), Indução
(uso de conversas e explicações) e Supressão de afecto (os pais mostram-se zangados com
os filhos e privam-nos temporariamente de afecto)

Ligações Precoces e Desenvolvimento Social – Cunhagem e Vinculação

§ A questão dos afectos é essencial
§ O desenvolvimento social da criança começa com os primeiros laços humanos que ela estabelece – vinculação à sua mãe ou à pessoa que cuida dela
§ As características da relação mãe-filho são de grande importância para o desenvolvimento futuro da criança, no relacionamento com os outros, na auto-estima e na personalidade. Nesta relação de comunicação, a primeira manifestação comportamental activa e intencional da criança é o sorriso, entre os 2 e os 4 meses
§ Existe uma necessidade de vinculação e apego, ou seja, necessidade de estabelecer contacto físico e laços sentimentais com a mãe. Esta relação mãe-filho é explicada por Freud, como uma relação biológico-afectiva causada pela satisfação de necessidades físicas
§ Harlow através de um estudo experimental comprovou que a relação mãe-filho baseia-se em mais do que uma necessidade da satisfação de necessidades básicas
§ Harlow criou macacos recém-nascidos sem mães. Cada cria vivia sozinha numa jaula que continha 2 figuras estáticas: uma em arame que fornecia leite, e outra em tecido felpudo que não fornecia leite à cria. Os resultados depreenderam-se com a preferência do modelo felpudo em vez do modelo de arame, já que estes, lhes proporcionavam uma sensação de consolo e conforto
§ Além disso, os bebés mostram frequentemente interesse por outras pessoas que nunca os alimentaram ou satisfizeram as suas necessidades fisiológicas. Assim, a vinculação é provocada pelo sentimento de consolo que este apego a outrém, produz na criança
§ A competência afectiva não vem só do cariz físico, mas também biológico (Laço desenvolvido com indivíduos preferidos, que são normalmente concebidos como pessoas importantes; o comportamento é dirigido a uma pessoa específica e caracteriza-se por ser uma relação de longa duração – relação bidireccional)
§ Vinculação – Tendência apresentada pelas crias de várias espécies (incluindo a espécie humana), para permanecer perto de um adulto, geralmente a mãe

Modelo de Vinculação de Bowlby

§ Bowlby encara a vinculação das crianças a um adulto (quer seja a mãe ou não) como tendo 2
causas: o prazer em interagir com um adulto, e o medo inato do desconhecido e do não familiar
§ Bowlby e outros estudiosos consideram que a vinculação à mãe só se pode formar durante um período sensível, no início da vida. Em parte, essa suposição tem origem no estudo da cunhagem de aves. Esta cunhagem é o processo pelo qual são formadas vinculações em períodos críticos e que é difícil de desfazer (e.g. a tendência mostrada pela cria de pato para seguir o 1º estímulo móvel que encontre durante as 24 horas subsequentes à eclosão do ovo)
§ Segundo esta perspectiva, se a vinculação precoce não se formar, o desenvolvimento social posterior poderá ser seriamente prejudicado, como se mostrou em estudos de macacos e crianças criadas em orfanatos carenciados
§ No entanto, estudos posteriores sobre crianças adoptadas sugerem que esses danos não são irreversíveis e nem a experiência precoce de vinculação tão importante

5.1. Os tipos de Vinculação (Ainsworth)

§ Ainsworth (1978, 1979), tentou avaliar a qualidade da vinculação das crianças à mãe, observando o comportamento das crianças dos bebés na “situação estranha”

Estudo
A reacção da criança à separação da mãe variava de acordo com a qualidade de relação de vinculação entre os 2
Foi criada uma situação estranha, uma situação estandardizada, criada numa sala de observação com o objectivo de dar informação sobre a relação mãe-bebé. É uma situação composta por 8 episódios
1. Criança e mãe são colocadas numa sala de observação. O experimentador sai deixando mãe e filho à vontade
2. A mãe está inactiva e a criança é deixada livre e à vontade para explorar o ambiente
3. Um adulto, não familiar para a criança, entra na sala. Inicialmente o estranho está em silêncio, passado um minuto começa a conversar com a mãe. Passado outro minuto aproxima-se da criança, e a mãe sai da sala
4. Estranho e criança são deixados a sós na sala
5. A mãe volta para a sala e o estanho sai, a mãe tenta acalmar ou reequilibrar a criança. A mãe sai de novo
6. A criança é deixada a sós na sala
7. O estranho volta a entrar na sala e começa a interagir com a criança
8. A mãe volta a entrar e o estranho sai da sala de observação

Estilos de vinculação

Estilo de Vinculação Evitante(20% das crianças) Estilo de Vinculação Seguras(70% das crianças) Estilo de Vinculação Ansiosas/Ambivalentes(10% das crianças)
§ Crianças quando eram deixadas sozinhas mostravam um grande apatia emocional/ indiferença afectiva§ Carácter exploratório muito reduzido, os brinquedos não as entusiasmava§ Face à mãe – mostram grande indiferença (não reagem), ficam apáticos, muitas vezes, nem olham para a mãe quando ela entreva novamente na sala§ Face ao estranho – Mostra pé atrás, mas nada de grande alarido § Quando estão na presença da mãe – comportamento exploratório muito rico e activo (brincam, riem, são criativas)§ Quando o estranho entra – mostram algum pé atrás, mas passado algum tempo interagem com o estranho (escondem-se, brincam)§ Quando a mãe se ausenta – mostram alguma perturbação emocional (choram um pouco, vão à porta, chamam pela mãe – mas é momentâneo), mas continuam a explorar, embora o façam de uma maneira muito menor§ Quando a mãe volta – grande alegria, fáceis de apaziguar (choram um bocadinho no sentido de pedir conforto, quando a mãe as conforta, volta a estar tudo bem, ela voltam a brincar…) § Quando ficam sozinhas com a mãe – mostram grande ansiedade, agarram-se à perna da mãe e ficam muito na dúvida entre o ir e não – ambivalência§ Comportamento exploratório reduzido ou nulo§ Face ao estranho – reagem mal§ Quando a mãe se ausenta – reacções muito intensas (choram, gritam, não brincam)§ Quando a mãe volta – extremamente difíceis de apaziguar, as mães dão-lhes conforto, mas as crianças são rudes para elas, querem estar ao colo das mães, mas também querem mostrar-lhes que não gostaram de estar sozinhos
5.2 . Tipologias de Observação das Interacções Pais-Filhos

Pais Autoritativos
§ O pai controla e valoriza a disciplina (que associa ao afecto)
§ Pais muito atentos às necessidades das crianças
§ Tomam em consideração opiniões e necessidades dos filhos
§ Utilizam o “dar e receber” explicações para a interiorização de regras
§ Proporcionam ambientes estimulantes
§ Liberdade – não são intrusivos e permitem aos filhos uma liberdade e regularidade razoável

Consequências para as crianças
§ Elevada independência, autonomia, agência cognitiva e social
§ Elevada responsabilidade social
§ Capacidade de controlo da agressividade
§ Auto-confiança
§ Elevada auto-estima

Pais Autoritários
§ Acima de tudo está a autoridade, o poder (obediência é muito valorizada)
§ Utilizam técnicas disciplinares punitivas (punição severa de desvios às regras, normas e exigências)
§ Não dão autonomia aos filhos
§ Não correspondem às necessidades dos filhos
§ Regras impostas sem serem por negociação ou diálogo
§ Dão muitas responsabilidades aos filhos
§ Não encorajam à discussão de ideias

Consequências para as crianças
§ Baixas competências sociais face aos pares: tendem a isolar-se, evitam tomar iniciativas, falta de espontaneidade e criatividade
§ Desenvolvimento moral: tendem a possui uma moralidade centrada em critérios externos para a resolução de conflitos morais
§ Baixa auto-estima
§ Motivação para o desempenho intelectual é reduzida
§ Relação com a agressividade não parece ser linear (relação pai-filho é diferente – os pais mandam os filhos obedecem)

Pais Permissivos
§ Evitam exercer controlo sobre os filhos
§ Tolerância excessiva da expressão dos impulsos da criança (incluindo os agressivos e sexuais)
§ Permitem auto-regulação e autonomia
§ Ouvem as necessidades dos filhos, mas não têm papel activo nem responsabilizante
§ Vêem os filhos como uma natureza de impulsos – predeterminada
§ Enquanto os pais autoritários acham que estes impulsos são maus e devem ser controlados, os pais permissivos têm a ideia de que são bons e que as crianças precisam de uma certa liberdade para os desenvolverem
§ Ausência de regras ou normas

Consequências para as crianças
§ Elevada impulsividade
§ Elevada agressividade – Não controlam qualquer tipo de emoções
§ Dificuldades de independência e autonomia
§ Reduzida capacidade para assumir responsabilidades


Pais Indulgentes
§ Pais que estão tão centrados em si mesmos, que não têm qualquer tipo de atenção para com a criança
§ Progenitor absorto em actividades externas não tendo disponibilidade para dedicar tempo/energia à criança
§ Tendem a responder apenas às necessidades imediatas da criança, de forma a eliminá-las
Indisponibilidade psicológica, distanciamento, indiferença

Consequências para as crianças
§ Deficiência no funcionamento intelectual
§ Maior raiva e agressividade
§ Dificuldades de controlo do ego – impulsos
§ Mais exigentes, coercivos ou manipuladores (e.g. choro)
§ Menor auto-estima
§ Locus de controlo externo (“obra e graça” ,sorte)

5. Perspectivas Contextualistas do Desenvolvimento

§ O desenvolvimento é muito marcado pela cultura
§ Fases de desenvolvimento marcadas pelo meio
§ Grande importância à interacção social
§ Desenvolvimento marcado pelos acontecimentos da vida e pelos contextos específicos em que estamos inseridos (.e. tecnologia, guerra, pobreza…)

6.1. Ecologia Social e os Contextos de Desenvolvimento

§ O meio e o contexto são fundamentais para o desenvolvimento
§ Reciprocidade entre indivíduo e meio
§ Indivíduos são vistos como uma entidade dinâmica
§ O ambiente não é exclusivamente o imediato, mas incorpora contextos mais latos e as interacções entre tais contextos

“A compreensão do comportamento humano requer mais que a observação directa do comportamento de 1 ou 2 pessoas no mesmo local; requer a análise de sistemas multipessoais em interacção e não limitados apenas a um contexto, sendo necessário ter em conta aspectos do ambiente para além da situação imediata contendo o sujeito”

“O desenvolvimento consiste na concepção evolutiva que o indivíduo tem do ambiente ecológico da sua relação com ele e da sua capacidade crescente para descobrir, manter ou alterar as suas propriedades”

§ Organiza o meio em 4 sistemas de interacção
§ O desenvolvimento é realizado através da acomodação progressiva e mútua entre o sujeito e o meio
§ Brofenbrenner estabelece que o meio ecológico é essencial para o desenvolvimento inicial da criança

4 Níveis de Análise da Envolvente Ecológica

1. Nível Microssistémico/Microssistema (pequenos sistemas/cenários)

§ Estudo dos padrões de actividades, papéis e interacções que ocorrem num cenário em que a criança cresce (e.g. nº. de irmãos, posição da criança no grupo de pares, expectativas do professor sobre a resposta da criança)


2. Nível Mesossistémico/Mesosssistema (entre sistemas/cenários)

§ Estudo dos padrões de actividade, papéis e interacções que decorrem no quadro da relação entre cenários em que a criança participa. Implica todos os processos de interacção entre dois (ou mais) cenários microssistémicos (e.g. expectativas de desempenho escolar por parte dos pais, comunicação entre a família e a escola)

3. Nível Exossistémico/Exossistema (sistemas/cenários externos)

§ Implica o estudo de pelos um cenário no qual a criança não participa directamente, mas no qual os acontecimentos têm reflexos sobre aqueles em que ela está directamente ligada (e.g. a importância das redes sociais parentais na interacção pais-filhos)

4. Nível Macrossistémico/Macrossistema (grandes sistemas/cenários)

§ Estudo do sistema de crenças e ideologias que enquadram outros sistemas (e.g. transições de grupo humanos da ideologia capitalista para a maioria capitalista)

7. Perspectivas Sócio-Cognitivo do Desenvolvimento

§ Centra-se na forma como as crianças vêem determinada situação
§ Esta teoria adopta os princípios de Piaget – assimilação, acomodação, adaptação
§ O modo como as crianças se orientam para os outros está determinado por 2 consequências sobrepostas do desenvolvimento dos processos cognitivos:
A transição gradual de processos afectivos para processos cognitivos
A refocalização gradual de si para os outros
§ Este modelo afirma que nos períodos em que os processos afectivos predominam, a reacção aos outros assenta sobre as condições e as necessidades (e.g. reacção a um estranho, em que entre os 8 e os 24 meses, manifesta um grande apego ao familiar e rejeição ao desconhecido)
§ A desconfiança e a rejeição do que é estranho persiste para além dos 2 anos, como manifestação dos processos de natureza afectiva. Assim se explicam as atitudes e comportamentos preconceituosos precoces (-3 anos) de discriminação de crianças de grupos diferentes

Crenças Parentais, Práticas Educativas e Desenvolvimento Infantil

§ As crenças são um conjunto de opiniões e convicções que afectam o comportamento da pessoa, as suas relações com os outros e as suas atitudes perante a vida
§ As crenças influenciam o comportamento das pessoas em relação ao objecto sobre o qual essas ideias se centram
§ Crenças diferentes podem levar a atitudes diferentes perante a mesma situação ou objecto
§ As crenças parentais sobre os seus filhos podem também influir nos comportamentos tomados pelos pais em relação à educação na criança, i.e., as ideias que os pais têm sobre a educação das crianças, podem influenciar bastante no tipo de prática educativa a adoptar pelos pais e na maneira como olham para os seus filhos
§ As consequências das ideias parentais podem ser analisadas 2º duas perspectivas diferentes, ou seja, as consequências das crenças dos pais para eles mesmos ou para o desenvolvimento social e cognitivo dos seus filhos
§ E estudo das consequências das crenças para os próprios pais tem-se baseado na análise das relações: ideias parentais/emoções e ideias parentais/comportamento dos pais
§ No que concerne à 2ª perspectiva, as ideias parentais têm efeito no desenvolvimento dos filhos na medida em que compõem um conjunto com a cultura, o grupo étnico ou o nível sócio-económico, um conjunto de factores sociais que têm influência no desenvolvimento da criança


Práticas Educativas

1. Práticas Educativas Interactivas – Nas quais, a mãe estabelece uma relação directa com o filho, veiculando normas, modos de pensar, agir, sentir…
2. Práticas Educativas Estruturantes – Acções que organizam os cenários em que a criança se move

Tipos de Estratégias Educativas

1. Estratégia de Distanciamento – Pais pedem à criança que pense. Fazem perguntas de forma a que esta, antecipe consequências alternativas

2. Estratégia Racional– Pais fornecem razões, causas, explicações, informações

3. Estratégia Autoritária – Pais dão ordens directas e explicam regras

4. Reforço Positivo – Pais dão recompensas

5. Reforço Negativo – Pais castigam ou privam a criança

6. Abandono da Situação – Pais dizem que não fariam nada, ou deixariam a criança resolver o
assunto sem qualquer indicação

7. Redução de Tensão – Pais tentam acalmar a criança fazendo com que esta se sinta menos
aflita

8. Condescendência – Pais dizem que fariam o que a criança pede, mesmo que tal fosse contra uma ordem ou regra expressa anteriormente

Estrutura e Conteúdos das Crenças

1. Modelo Altruísta – Crença de que um cenário educativo integrado, promove a aprendizagem da diversidade social e do seu valor para além das diferenças, associado à representação de que as dificuldades de aprendizagem estão ligadas a problemas psicológicos

2. Modelo Tradicional – Valorização da educação formal e da importância dos livros na aprendizagem, estando as dificuldades de aprendizagem associadas a problemas intelectuais e emocionais
3. Modelo de Autonomia – Valorização da educação informal, salientando por um lado, a importância da observação do mundo para o desenvolvimento infantil, e por outro lado, o papel central dos pais no processo cognitivo, sendo a integração vista como importante na aprendizagem inter-ajuda

4. Modelo Elitista – Centra-se nas desvantagens do ensino integrado – professores não conseguem manter o ritmo normal das classes e crianças normais desmotivam-se

5. Modelo Democrático – Ideia de que as crianças não nascem todas iguais e que a escola é a principal garantia de igualdade de oportunidades para todas elas

Contribuição das Crenças Parentais na Adopção das Práticas Parentais Interactivas

1. Crenças de “Autonomia” – Explicam a utilização de práticas de “condescendência: quanto mais uma mãe acredita na promoção da autonomia e individualidade, menor a probabilidade de ser condescendente

2. Crenças “Democráticas” – Explicam a utilização da prática de “redução de tensão”: quanto mais acreditam no modelo democrático, menor a probabilidade de utilizarem a estratégia de redução de tensão
3. Crenças no modelo “Tradicional” – Explicam a utilização das práticas de “autoridade explicada”: quanto mais tradicionais, maior a utilização de ordens acompanhadas pelas respectivas razões

PSICOPATOLOGIA

Psicopatologia – Estudo dos comportamentos e dos funcionamentos anormais do ser humano. É o estudo das desordens psicológicas.
Mas como definir o que é normal? Como diferenciar o normal e o patológico?

Sintoma – Estados subjectivos que indicam a presença/ausência de uma perturbação (e.g. febre, ansiedade)

Síndrome – Conj. de sintomas que nos permitem fazer um diagnóstico numa determinada pessoa

Abordagem Estatística
§ O comportamento normal é aquele que se situa na média de uma população e o patológico nos extremos da distribuição, ou seja, o tipo de comportamentos menos frequentes
§ Mas um comportamento menos frequente não é necessariamente patológico

Abordagem Normativa
A patologia é a ausência de saúde mental. 2º Jahoder (1958), os critérios de saúde mental são:

§ Capacidade de Auto-Actualização
§ Capacidade de Auto-Avaliação dos comportamentos
§ Autonomia
§ Resistência ao Stress

Abordagem Empírico – Descritiva
§ Procura descrever os comportamentos adequados
§ Procura saber quais os aspectos e os sintomas dos comportamentos considerados patológicos
§ Os factores sociais e culturais podem fazer variar a visão de um comportamento, considerando-o normal ou patológico (e.g. homossexualidade)
§ É uma abordagem que observa as características dos comportamentos considerados desadequados
Visão Histórica da Psicopatologia

§ Na idade média pensava que um louco estava possuído pelos demónios. Para curar a loucura, eram cometidas atrocidades do tipo perfurar o crânio dos loucos, queimá-los na fogueira…
§ Só mais tarde se pensou que as doenças mentais poderiam ser explicadas da mesma forma que as doenças físicas, todavia, só no séc. XIX com Philipe Pine, é que se começa a acreditar que a loucura é uma doença orgânica, que cuja causa pode ser descoberta
§ Assim, começaram a surgir diferentes maneiras de explicar as causas das patologias psicológicas

1. Hipótese Somatogénica

§ A loucura era explicada por distúrbios orgânicos (perturbações neurofisiológicas ou neuropsicológicas)
§ A cura de algumas paralisias reforçou essa hipóteses, todavia, não explicava a histeria. O comportamento de histeria não era explicado por funções neurofisiológicas, e nem todas as patologias resultavam de disfunções orgânicas

2. Hipótese Psicogénica

§ Estas perturbações não eram resultado de disfunções orgânicas, mas uma forma de lidar com a
ansiedade
§ As suas técnicas faziam curar histerias, muito embora, a causa principal da maioria das patologias não seja uma perturbação orgânica, todos os nossos comportamentos, normais ou patológicos, têm uma base neurofisiológica

3. Modelo Patológico

§ O modelo patológico parte do principio de que as perturbações mentais são semelhantes a qualquer doença em geral, no sentido em que apresentam sintomas e síndrome, que reflectem de uma forma etiologia (causa) somática ou psicológica subjacente
§ O grande objectivo do terapeuta ou medico é o de descobrir a causa dos sintomas e removê-la ou minimizá-la
§ Não são feitas quaisquer afirmações quanto ao tipo de etiologia subjacente às perturbações (causas físicas/mentais)

3.1. Modelo Médico-Somático/Biomédico

§ Privilegia as causas orgânicas (neurofisiológicas) dos distúrbios mentais (e.g. psiquiatria)
§ Os tratamentos utilizados são essencialmente farmacológicos (e.g. antipsicóticos, antidepressivos), que agem sobre o organismo
§ Antigamente para o tratamento de perturbações mentais eram utilizados choques eléctricos (para controlar problemas de depressão)

3.2. Modelo Psicodinâmico/Psicanalítico

§ Procura explicar as perturbações mentais, afirmando em que os conflitos intrapsíquicos são a causa da patologia. Assim, os sintomas de perturbação mental devem-se a causas psicológicas
§ O tratamento consiste em psicoterapias baseadas em princípios psicanalíticos, cujo objectivo é proporcionar ao paciente a consciencialização dos seus conflitos internos (removendo a raiz da patologia)

3.3. Modelo Comportamental

§ Explica a patologia através da aprendizagem dos comportamentos não – adaptativos (todavia, não explica as patologias que não ocorrem por associação estímulo – resposta)
§ Como tratamento há que reeducar a pessoa, procurando diminuir a frequência deste tipo de comportamentos e aumentar a frequência de comportamentos adaptativos
§ As técnicas utilizadas são as de dessensibilização sistemática, terapias agressivas, ou o sistema de economia de fichas (sistemas em que os comportamentos positivos são reforçados com fichas que podem ser trocadas por coisas apetecíveis)

3.4. Modelo Cognitivo

§ Explica a patologia através dos hábitos e pensamentos irracionais, i.e., entende algumas perturbações mentais como causas de hábitos deficientes de pensamento (e.g. pensamento pessimista ou catastrófico)
§ Os terapeutas lidam com as perturbações, modificando o modo como o doente pensa sobre si próprio, as suas condições de vida e o futuro

Psicopatologia do Adulto

§ Em 1973, o DSM II, divide as patologias psicológicas do adulto em 2 grupos: psicoses e neuroses

Neuroses – Desordens que têm como características a ansiedade ou o uso de mecanismos de defesa contra a ansiedade (e.g. fobias, pânico). Dizem-se egosintónicas, as pessoas que têm consciência do seu comportamento irracional (que este lhes traz sofrimento)
Psicoses – Perturbações egodistónicas, i.e., perturbações cujos comportamentos, pensamentos e estados de humor são distorcidos e o sujeito não se apercebe disso, não tendo contacto com a realidade

§ A DSM IV, 1996, distinguiu 5 eixos de acção do terapeuta na construção do diagnóstico:
Eixo 1 – Perturbações Clínicas: (Humor, Ansiedade, Esquizofrenia e psicóticas, Dissociativas)
Eixo 2 – Perturbações de Personalidade
Eixo 3 – Estado Físico do Sujeito
Eixo 4 – Problemas Psicossociais e Ambientais do Sujeito
Eixo 5 – Avaliação Global do Funcionamento

1.1. Perturbações de Humor (ou de Afecto)

§ Grupo de perturbações cuja característica principal é uma perturbação do humor definido por 2 extremos emocionais – o estado depressivo e o estado maníaco
§ As perturbações de humor podem ser divididas em 2 categorias:
Desordens Unipolares – Quando o sujeito se encontra num dos pólos do estado de humor, i.e., ou depressão major ou episódio de mania
Desordens Bipolares – Quando os sujeitos oscilam entre 2 pólos – psicose maníaco – depressiva

Depressão Major

§ Caracterizada por um estado depressivo extremo do paciente
§ Perturbações endógenas (causadas por factores orgânicos) e reactivas (causadas por factores ambientais, i.e., uma reacção a um acontecimento mau

Características:
§ Tristeza, apatia
§ Humor depressivo
§ Perda de interesse e prazer
§ Insónia ou hipersónias
§ Perda de energia
§ Sentimento de desvalorização ou culpa excessiva
§ Diminuição da capacidade de atenção ou concentração
§ Incapacidade de decisão
§ Pensamentos recorrentes acerca de morte e suicídio
§ Incapacidade tratar delas próprias

Episódio de Mania

Sintomas:
§ Humor anormal, persistentemente elevado, expansivo e irritável
§ Auto-estima aumentada ou grandiosidade
§ Diminuição da necessidade de dormir
§ Mais falador do que o normal
§ Fuga de ideias, devido à necessidade de fazer ou contar coisas diferentes
§ Envolvimento excessivo em actividades agradáveis com consequências potencialmente desagradáveis

Episódio Maníaco – Depressivo
Esta é uma perturbação bipolar em que episódios depressivos alternam com episódios de mania

Causas da Perturbação de Humor

§ As causas remotas são factores orgânicos hereditários ou factores psicológicos (as deficiências nos neurotransmissores fazem com que a pessoa procure razões para o seu estado de humor – o mundo não presta e o próprio também não; cognições estas, que vão corresponder aos sentimentos do sujeito)
§ As causas próximas são, segundo hipóteses bioquímicas, a deficiência dos neurotransmissores seretonina e norepinefrina. Os medicamentos antidepressivos aumentam a quantidade destes neurotransmissores

1.2. Perturbações de Ansiedade

§ As perturbações de ansiedade têm como sintomas principais a ansiedade ou as defesas contra ela. O paciente está sistematicamente apreensivo, receia o pior e está em guarda contra ela

Fobia Específica

§ As fobias são medos irracionais e intensos de um determinado objecto ou situação. As fobias específicas relacionam-se com objectos ou acontecimentos particulares (e.g. aranhas, alturas…)
§ As fobias tendem a generalizar-se (e.g. o medo de leões pode passar a ser o medo de todos os felinos), dificultando e limitando a vida do paciente
§ A exposição ao estímulo fóbico provoca quase sempre e invariavelmente, uma resposta ansiosa imediata, que pode ter a forma de um ataque de pânico
§ Os sintomas desta patologia (a seguir mencionados), são acompanhados de uma intensa preocupação, terror e sentimento de desgraça iminente

Ataque de Pânico

Características:
§ Palpitações, tremores
§ Suores
§ Sensação de sufoco
§ Dificuldade em respirar
§ Dor no peito
§ Náuseas ou mal-estar abdominal
§ Sensações de tonturas ou desmaios
§ Desrealização ou despersonalização
§ Medo de perder o controlo ou de enlouquecer
§ Medo de morrer
§ Sensações de dormência

Perturbação Obsessivo – Compulsiva

Caracteriza-se por obsessões (pensamentos e desejos persistentes e irracionais) e compulsões (actos repetitivos e incontroláveis), que parecem funcionar como defesas contra a ansiedade

Ansiedade Generalizada

Os sintomas são iguais aos da fobia, mas o estímulo que desperta a ansiedade é generalizado – ansiedade difusa e livre:
§ Fadiga
§ Elevada tensão muscular
§ Insónias
§ Irritação

1.3. Esquizofrenia e Perturbações Psicóticas

Esta doença caracteriza-se por uma quebra do contacto com a realidade
Características:
§ Desordens cognitivas
Distúrbios de pensamento– O doente é incapaz de manter uma linha de pensamento lógico/
coerente
Distúrbios de atenção – Incapacidade de se focar num estímulo
Perda de contacto com a realidade, isolamento, para tentar evitar a sobre–estimulação
§ Desordens motivacionais e emocionais
Hipersensibilidade – Qualquer pequena coisa causa grandes consequências emocionais
Embotamento emocional – Apatia ou reacções emocionais desajustadas
Desarranjo na expressão de afectos
§ Desordens de comportamento
Catatonia – Imobilidade ou escolha de posições estranhas – ou extrema agitação motora
§ Criação de um mundo próprio
Alucinações e ideias delirantes – Têm base real mas extrapolam

§ As causas remotas desta patologia são factores genéticos e ambientais, ainda pouco definidos (pobreza…)
§ As causas próximas são deficiências psicológicas (perturbações cognitivas) ou deficiências orgânicas (neurotransmissores – excesso de libertação de dopamina, que é controlada através de medicamentos antipsicóticos, como o Haldol e Thorazina ou neuroanatómico)
§ Crow sugere que existem 2 síndromes de esquizofrenia
a esquizofrenia caracterizada por sintomas positivos (comportamento do paciente que as pessoas normais não têm: alucinações, delírios, comportamentos bizarros), que seria causada pelas deficiências na libertação de dopamina
a esquizofrenia caracterizada por sintomas negativos (perda de funcionamento normal: apatia, emoções inadequadas, pobreza de discurso), seria causada por deficiências cerebrais e atrofia – deficiência neuroanatómicas

1.4. Perturbações Dissociativas

§ Perturbações em que todo um conjunto de informações mentais é armazenado fora da consciência comum (incluem a amnésia psicogénica e casos de múltipla personalidade)
§ Perturbação em que o indivíduo é incapaz de recordar um período da sua vida, ou mesmo todos
os acontecimentos anteriores ao surgimento da amnésia, incluindo a própria identidade. É uma incapacidade tão vasta que não pode ser explicada por puro esquecimento

Dissociativa da Identidade (Múltiplas Identidades)

§ Uma perturbação dissociativa consiste em a pessoa desenvolver 2 ou mais personalidades distintas. Há assim, a presença de múltiplas identidades ou estados de personalidade, cada qual com o seu próprio padrão de percepção, reacção e reflexão sobre o ambiente e o “eu”

Perturbações de Conversão

§ Condição na qual se verifica a existência de sintomas físicos sem base física aparente. Estes sintomas parecem ligar-se a factores psicológicos e pensa-se que funcionam, muitas vezes, como meio de reduzir a ansiedade (e.g. histeria)

Psicopatologia da Criança e do Adolescente

§ Para observar se uma criança tem ou não uma patologia, temos de ter em atenção não só o seu comportamento , como também o seu desenvolvimento e o ambiente em que este se dá

Existem diversos modelos explicativos das patologias infantis:
§ Modelo Lesional – Perturbação explicada por lesão cerebral
§ Modelo Dinâmico – Conflitos intra-psíquicos que causam a patologia
§ Modelo Ontogénico – Patologia deriva de um atraso na maturação e desenvolvimento da criança
§ Modelo Ambiental – Ambiente é que causa a patologia, o contexto afecta o desenvolvimento

Autismo

Doença descoberta por Kanner em 1943, em que não tratamento para esta doença

Sintomas:
§ Défice na interacção social
§ Défice na comunicação – atraso ou ausência de linguagem oral
§ Padrões de comportamento, interesses e actividades restritos, repetitivos e estereotipados – preocupação excessiva com pormenores irrelevantes e obsessão pela rotina

Perturbações de Ansiedade

Ansiedade de Separação

§ Ansiedade excessiva e inadequada para o nível de desenvolvimento do sujeito, relativamente à separação da casa ou das pessoas a quem está vinculado

Sintomas:
§ Mal-estar excessivo antes ou durante o momento de separação da casa ou das figuras de melhor vinculação
§ Relutância em ter actividades que impliquem afastamento de casa ou dos elementos mais próximos
§ Pesadelos repetidos que envolvem o tema de separação
Enurese

§ Esta patologia caracteriza-se pela emissão repetida de urina na cama ou nas roupas, não causada pelos efeitos fisiológicos de uma situação, nem por uma situação física em geral. A causa da enurese é basicamente ambiental

Perturbações Comportamentais

Caracteriza-se por um padrão de comportamento repetitivo e persistente, em que são violados os direitos básicos dos outros, ou importantes regras ou normas sociais próprias da idade, manifestando-se pelos seguintes comportamentos:

§ Agressão frequente a pessoas e animais
§ Destruição da propriedade
§ Falsificação ou roubo
§ Violação grave das regras

Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção

2 Sintomas:
§ Falta de atenção – Dificuldade de focalização num só estimulo, esquecimento de actividades quotidianas, desorganização
§ Hiperactividade – Move-se excessivamente, move-se em situações em que é inadequado fazê-lo, fala em excesso

§ Impulsividade – precipitação – Não espera pelo fim das perguntas, não espera pela sua vez

§ Causas – Subactivação do sistema nervosos, causas ambientais (sistema familiar, alimentação). Tratamento farmacológico